Arquivo da tag: violação dos Direitos Humanos

Mujer y minería: Ámbitos de análisis e impactos de la minería en la vida de las mujeres

coverLa concreción de la política minera en los territorios implica transformaciones especialmente radicales en la vida de las mujeres. Indígenas, negras y campesinas, algunas incluso vinculadas a la actividad minera ancestral o artesanal, son vulneradas en sus derechos colectivos, se amenaza su soberanía alimentaria, su salud, su rol al interior de sus comunidades y culturas. De la misma manera, las mujeres también construyen una perspectiva propia en términos de alternativas y resistencias en defensa de sus vidas, sus cuerpos y sus territorios. Para examinar más en detalle esas particularidades, este documento presenta un análisis del contexto de la minería en Colombia y proponer algunos elementos y enfoques de incidencia en la acción política.

Baixe a publicação

Mujer y minería: Ámbitos de análisis e impactos de la minería en la vida de las mujeres – Enfoque de derechos y perspectiva de género AQUI

 Fonte: http://www.censat.org/publicaciones?task=view&id=62&catid=10043

Deixe um comentário

Arquivado em feminismo

A mulher grávida que o marido entregou aos torturadores

Soledad Barrett Viedma, grávida, foi entregue pelo marido aos torturadores da Ditadura Militar; torturada até à morte na cidade de Recife, em 08 de janeiro de 1973
Saiba mais MemoriaViva

Deixe um comentário

Arquivado em feminismo, ofensiva contra o machismo, Uncategorized

As mulheres e a ditadura militar no Brasil

Em entrevista à IHU On-Line, realizada por telefone, Rago destacou alguns momentos que foram marcantes para as mulheres que, ao longo do tempo, não foram ouvidas nos debates, análises e reflexões sobre a repressão militar. “As mulheres ficavam bordando a dor na tapeçaria ao invés de escrever e falar. Acho que fomos educadas para se manter em silêncio e o feminismo rompe com isso, mas existe toda uma tradição cultural que vem de séculos dizendo que as mulheres não têm neurônios e inteligência”, aponta. Luzia Margareth Rago é historiadora pela Universidade de São Paulo e doutora em História pela Universidade Estadual de Campinas, onde também realizou seus dois Pós-Doutorado e obteve, em 2000, o título de Livre-docência. Há 24 anos, é professora da Unicamp. É autora de Mujeres Libres da Espanha: documentos da Revolução Espanhola. (Rio de Janeiro: Achiamé, 2008); Os prazeres da noite. Prostituição e códigos da sexualidade feminina em São Paulo, 1890-1930 (São Paulo: Paz e Terra, 2008), entre outras obras.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que fazer um evento que relaciona Mulheres, Ditaduras militares, Anistia?
Margareth Rago – Primeiro, porque estamos vivendo um momento especial, que é a comemoração dos 30 anos da anistia, com todas as discussões e questionamentos que isso tem trazido à tona. E, segundo, pela constatação de que as mulheres não estão aparecendo nesses eventos, como sempre. A intenção é dar maior espaço e visibilidade às mulheres, tanto que é um evento de mulheres falando das suas próprias experiências com outras mulheres que são historiadoras, também analisando estas experiências. Temos ex-presas políticas e ex-exiladas, como é o caso da Ivone Gebara e historiadoras como a Raquel Soihet, do Rio de Janeiro, a Graciela Sapriza, do Uruguai, a Susel Oliveira da Rosa, pós-doutora na Unicamp, e eu mesma.

Estamos em um universo feminino e feminista, refletindo sobre a questão da ditadura militar no Brasil e a questão da anistia. Na minha opinião, temos uma historiografia que é marcada por uma dicotomia muito forte. De um lado, praticamente todos os trabalhos que falam da ditadura militar no Brasil são escritos por homens e falam dos homens. De repente, tem um capítulo pequeno, uma nota de rodapé, que cita uma mulher e faz uma concessão, mas, em geral, não há isso. O interior do universo masculino, do partido, do sindicato, da política tradicional, muito acentuadamente é marcado por esta questão de gênero que não é explicitada. De outro lado, temos uma historiografia, já nestes trinta anos, que é uma história do feminismo, que tem as mulheres bravas e lutadoras, mas também um pouco fechadas em um universo muito feminino. Acho é um meio de campo pouco trabalhado e onde quero entrar. Tenho uma pesquisa que trabalha com esta questão, com estas mulheres que transgrediram, que abriram novos espaços, não necessariamente presas políticas, algumas são por acaso. A ideia é essa, abrir espaço para pensarmos a questão desta necessidade feminina que merece um olhar, porque a diferença é muito grande da maneira como foram tratadas, como viveram e como narram o pessoal.

IHU On-Line – Em relação à ditadura que o Brasil viveu, a busca da verdade e da justiça virou uma luta das mulheres?
Margareth Rago – Acho que sempre esteve no horizonte do feminismo esta questão. A história do feminismo do Brasil, desta onda que vem da década de 1970, vem de mulheres militantes, marxistas, ex-presas políticas, como a Amelinha, fundadora da União de Mulheres em 1981, mas que era do PCdoB e foi presa em 1972; e como a irmã dela, Crimeia Alice Schmidt de Almeida, que esteve na guerra do Araguaia e também foi presa nesses anos. E mais a adesão de mulheres que estavam exiladas, como a Danda Prado, filha do Caio Prado, que teve uma experiência totalmente ligada a essa questão.

Então, o feminismo brasileiro é um feminismo de esquerda e esteve altamente envolvido na luta contra a ditadura militar, não tenho dúvida nenhuma disso. Não acho que é uma questão de agora, mas uma questão que esteve presente. Por algum motivo, talvez nós mesmas não estivéssemos tão preparadas em termos teóricos, pois, acho que é uma questão de linguagem, de nós podermos colocar as coisas em termos da narrativa feminina, da especificidade do feminino que não é biológica, que é cultural. Ou talvez porque é difícil falar da dor e do sofrimento no caso das mulheres. Quando um homem conta suas dores, seus problemas na prisão, por exemplo, quando se lê o livro do Flávio Tavares, é tudo muito doloroso, mas ele pode falar. Quando uma mulher vai escrever um livro dizendo como foi estuprada na prisão, é uma questão muito delicada, muito dolorosa.

Esse fato é constatado não só no Brasil. A historiadora do Uruguai, Graciela Sapriza, também acha isso no Uruguai. As mulheres não contam que foram estupradas, pouquíssimas falam disso. E sabemos que as mulheres são estupradas fora da prisão aos montes, imagina na prisão completamente nas mãos de torturadores, que eram brutos, pessoas terríveis. Talvez por aí as narrativas femininas não tenham sido tão fortes. Ou talvez pela questão do silêncio feminino que é cultural, é histórico, tem séculos e séculos, as mulheres ficavam bordando a dor na tapeçaria ao invés de escrever e falar. Acho que fomos educadas para se manter em silêncio, e o feminismo rompe com isso, mas existe toda uma tradição cultural que vem de séculos dizendo que as mulheres não têm neurônios e inteligência.

Os grandes homens do século XIX, como Spencer, Darwin, diziam que as mulheres são um menino de dez anos na evolução das espécies, porque elas têm que acumular energia para parir, e o preço que isso custa é perda de neurônios. A ginecologia, quando nasce no fim do século XVIII e início do XIX, fundamenta incivilidade física da mulher, cientificamente. Há toda uma tradição cultural de opressão às mulheres, e não é à toa que o feminismo explode violentamente, pondo a boca no trombone, como dizemos popularmente. Acho que as mulheres têm muita capacidade de escrever, temos mulheres brilhantes, escritoras, pintoras, artistas e compositoras, mas são sempre muito silenciadas, ou pelo discurso historiográfico, pela família, ou por muitas estratégias de poder, controle e produção da submissão.

IHU On-Line – Como a senhora analisa o “narrar” a ditadura hoje?
Margareth Rago – Entendo que falar da ditadura, escrever sobre ela, trazer essas experiências é absolutamente necessário e é um ato político. Sabemos que os jovens desconhecem o que aconteceu num passado recente, sendo que as feridas ainda não estão cicatrizadas. Então, narrar tem uma dimensão, em minha opinião, de processar o luto. Quando se fala, se revive o trauma, se compartilha com o outro, se chora. Participei de alguns eventos como agora, em maio, em Florianópolis, em que as mulheres falaram de suas experiências na prisão, havia uma argentina, uma uruguaia, uma boliviana e umas brasileiras, todas choraram imensamente, foi uma comoção, porque a dor é muito grande. Existe esta questão que é preciso processar o que aconteceu, é preciso falar, entender o que foi. Isto em uma dimensão pessoal e coletiva também, porque são feridas do país, e o país tem que se acertar, tem que enfrentar sua verdade, porque se não ele não se encontra. Faz parte da memória coletiva enfrentar o seu passado, saber o que aconteceu e colocar a limpo isso, para ele poder elaborar isto, ou então não vira a página. Acho que psicanalistas podem explicar muito bem isto, mas funciona a nível pessoal e coletivo. Um ato político de denúncia, pois os jovens têm que saber o que aconteceu, não se pode romper e simplesmente cair num mundo, como não se tivesse passado, não tivesse acontecido nada, estamos em uma democracia, está tudo ótimo e maravilhoso, vamos em frente.

Este é um compromisso ético e histórico. Existe um compromisso com os que morreram. Acho que este é um compromisso ético com os que não podem mais contar o que aconteceu, e com estes corpos que não foram encontrados, tanto por estas pessoas como pelas famílias, como esta história que está acontecendo com a guerrilha do Araguaia. Até há pouco tempo, essa guerrilha não constava nas histórias do Brasil, não tinha documentos e ninguém sabia de nada. Os militantes que contaram, os que sobreviveram, não tiveram processo, não tem nem o processo penal para se encontrar e saber o que aconteceu. Acho que tudo isso é muito importante, inclusive para garantir que não aconteça mais, que esta história não se repita. E, para isso, as pessoas têm que tomar conhecimento dessa história, saberem o que aconteceu, têm que se indignar sim. As mulheres têm muita história para contar. Elas têm que falar o que foi a violência nas prisões, as violências sexuais, e também na militância. Em um dos artigos que publicamos na Revista Labrys, há um depoimento e, ao mesmo tempo, uma reflexão de uma ex-presa política, que é professora universitária hoje, Eleonora Menegucci de Oliveira, onde ela diz que, até para os militantes companheiros, elas tinham que provar que eram corajosas, e elas faziam a segurança com armas, e as pessoas não falam dessa história. Fica esta ideia de que as mulheres serviam cafezinho e que não pensavam a revolução, não eram militantes tão importantes quanto os homens. Por tudo isso que estamos fazendo este evento no dia 29 de outubro e, ao mesmo tempo, publicando esse dossiê na Revista Labrys, dedicado às mulheres feministas que foram presas políticas, ou não, como a Ivone Gebara, mas que foi mandada para a Bélgica para fazer outro pós-doutorado porque havia saído um artigo em uma entrevista na revista Veja, em que ela defendia o aborto. Ela, como teóloga feminista, foi muito frontal à estrutura hierárquica e patriarcal da Igreja. Ela é uma das grandes filósofas feministas contemporâneas.

IHU On-Line – Como a ditadura influenciou a construção do feminismo político no Brasil?
Margareth Rago – A ditadura, se pudesse, teria impedido. A ditadura não constrói nada, só destrói. Há uma luta contra esta destruição, mas a ditadura destrói tudo, porque significa o silenciamento, é o fim da esfera pública. As pessoas não tinham mais os pontos de encontros, de sociabilidade, de troca política, de reflexão. A ditadura é um atraso profundo na vida de um país. Pense o que a reflexão científica, filosófica e teórica foi atrapalhada pela ditadura. Pense o que foi essa desinformação da juventude hoje, que não teve contato com nada, não sabe de nada que aconteceu. Se tivesse sido criada em um sistema democrático, teria contato com as coisas, com o mundo, com os manifestos, conflitos e protestos. Mas pelo contrário, a ditadura só atrapalhou. Acho que o mundo floresce quando se tem liberdade, acredito na liberdade, e não acredito no poder e na dominação. Olha no nazismo o que aconteceu, olha a ditadura da Argentina. Imagina um jovem argentino de 20 anos que tem uma família e, de repente, ele descobre que a família atual tem um torturador que matou os pais biológicos. A cabeça deste menino não tem como ficar normal, é uma tortura, um trauma.

Então acho que não, que ditadura nunca mais. Tortura nunca mais. Repressão e violência nunca mais. Temos que afirmar a liberdade, compromissos éticos, a solidariedade, a crença na possibilidade de construir novas formas de existência, éticas, libertárias que não se signifiquem submissão, obediência ao outro, pois isso é uma renúncia de si, como explica Michel Foucault. O que é duro, enquanto historiadora, é olhar que temos uma tradição histórica maravilhosa, mas que foi detonada por interpretações que se disseram verdadeiras e abafaram tudo. Não conhecemos nem sequer alguns termos hoje. Por exemplo, parrésia, que quer dizer coragem da verdade. Foucault buscará isso no movimento dos cínicos, lá atrás, antes de Cristo, e você fica chocada, porque o cinismo hoje significa falsidade, não é? E os cínicos eram pessoas que apostavam numa vida verdadeira, transparente, despojada. Ou seja, o oposto. O que constatamos com isso? Que predominou uma cultura da guerra, masculina, machista, homófoba. Isso é uma perda muito grande. Ainda bem que podemos descobrir essas outras dimensões que estão presentes no nosso passado e são tão ricas.

IHU On-Line – Na Argentina, a memória da ditadura é muito viva, muitas vezes, para que esse passado não volte a acontecer. Como a senhora vê a questão da memória da ditadura no Brasil?
Margareth Rago – Antes de falar com você, eu liguei a televisão e apareceu uma senhora falando da filha – e apareceu a foto da filha – que foi morta na Guerrilha do Araguaia. A mulher está falando que é mãe, que ainda não encontrou o corpo e que há “tantos” desaparecidos políticos ainda. Eu levei um susto, porque, na Argentina, isso aconteceu faz tempo. Há muito tempo essas questões foram para a televisão lá! Aqui não. É claro que há muitas diferenças históricas. O país lá é menor, aqui é imenso. A questão lá envolveu muito mais gente, como todo mundo sabe. A questão não é quantitativa. Todo ato de violência tem que ser evitado, impedido. Eu não sei ainda entender as temporalidades. Mas acho que, na Argentina, foram muitos filhos desaparecidos. Todo mundo tem uma historia. A coisa bateu de uma maneira muito forte. Aqui a coisa foi muito dispersa. Vejo que há uma movimentação hoje no Brasil que na Argentina já aconteceu. Mas, de qualquer forma, isso é positivo.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

Deixe um comentário

Arquivado em machismo mata, ofensiva contra o machismo, Uncategorized

Lembrança dos crimes da ditadura militar: fazei isso em memória delas

lembrança dos crimes da ditadura militar: fazei isso em memória delas

POR José Bessa Freire

São mulheres de diferentes cidades do Brasil. Algumas amamentavam. Outras, grávidas, pariram na prisão ou, com a violência sofrida, abortaram. Não mereciam o inferno pelo qual passaram, ainda que fossem bandidas e pistoleiras. Não eram. Eram estudantes, professoras, jornalistas, médicas, assistentes sociais, bancárias, donas de casa. Quase todas militantes, inconformadas com a ditadura militar que em 1964 derrubou o presidente eleito. Foram presas, torturadas, violentadas. Muitas morreram ou desapareceram lutando para que hoje nós vivêssemos numa democracia.

As histórias de 45 dessas mulheres mortas ou desaparecidas estão contadas no livro “Luta, Substantivo Feminino”, lançado quinta-feira passada, na PUC de São Paulo, na presença de mais de 500 pessoas. O livro contém ainda o testemunho de 27 sobreviventes e muitas fotos. Se um poste ouvir os depoimentos dilacerantes delas, o poste vai chorar diante da covardia dos seus algozes. Dá vergonha viver num mundo que não foi capaz de impedir crimes hediondos contra mulheres indefesas, cometidos por agentes do Estado pagos com o dinheiro do contribuinte.

Rose Nogueira – jornalista, presa em 1969, em São Paulo, onde vive hoje. “Sobe depressa, Miss Brasil’, dizia o torturador enquanto me empurrava e beliscava minhas nádegas escada acima no Dops. Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os ‘40 dias’ do parto. Riram mais ainda quando ele veio para cima de mim e abriu meu vestido. Segurei os seios, o leite escorreu. Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele (delegado Fleury) ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar de louco. O torturador zombava: ‘Esse leitinho o nenê não vai ter mais’”.

Izabel Fávero – professora, presa em 1970, em Nova Aurora (PR). Hoje, vive no Recife, onde é docente universitária: “Eu, meu companheiro e os pais dele fomos torturados a noite toda ali, um na frente do outro. Era muito choque elétrico. Fomos literalmente saqueados. Levaram tudo o que tínhamos: as economias do meu sogro, a roupa de cama e até o meu enxoval. No dia seguinte, eu e meu companheiro fomos torturados pelo capitão Júlio Cerdá Mendes e pelo tenente Mário Expedito Ostrovski. Foi pau de arara, choques elétricos, jogo de empurrar e ameaças de estupro. Eu estava grávida de dois meses, e eles estavam sabendo. No quinto dia, depois de muito choque, pau de arara, ameaça de estupro e insultos, eu abortei. Quando melhorei, voltaram a me torturar”.

Hecilda Fontelles Veiga – estudante de Ciências Sociais, presa em 1971, em Brasília. Hoje, vive em Belém, onde é professora da Universidade Federal do Pará. “Quando fui presa, minha barriga de cinco meses de gravidez já estava bem visível. Fui levada à delegacia da Polícia Federal, onde, diante da minha recusa em dar informações a respeito de meu marido, Paulo Fontelles, comecei a ouvir, sob socos e pontapés: ‘Filho dessa raça não deve nascer’. (…) me colocaram na cadeira do dragão, bateram em meu rosto, pescoço, pernas, e fui submetida à ‘tortura cientifica’. Da cadeira em que sentávamos saíam uns fios, que subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios. As sensações que aquilo provocava eram indescritíveis: calor, frio, asfixia. Aí, levaram-me ao hospital da Guarnição de Brasília, onde fiquei até o nascimento do Paulo. Nesse dia, para apressar as coisas, o médico, irritadíssimo, induziu o parto e fez o corte sem anestesia”.

Yara Spadini – assistente social presa em 1971, em São Paulo. Hoje, vive na mesma cidade, onde é professora aposentada da PUC. “Era muita gente em volta de mim. Um deles me deu pontapés e disse: ‘Você, com essa cara de filha de Maria, é uma filha da puta’. E me dava chutes. Depois, me levaram para a sala de tortura. Aí, começaram a me dar choques direto da tomada no tornozelo. Eram choques seguidos no mesmo lugar”.

Inês Etienne Romeu – bancária, presa em São Paulo, em 1971. Hoje, vive em Belo Horizonte. “Fui conduzida para uma casa em Petrópolis. O dr. Roberto, um dos mais brutais torturadores, arrastou-me pelo chão, segurando-me pelos cabelos. Depois, tentou me estrangular e só me largou quando perdi os sentidos. Esbofetearam- me e deram-me pancadas na cabeça. Fui espancada várias vezes e levava choques elétricos na cabeça, nos pés, nas mãos e nos seios. O ‘Márcio’ invadia minha cela para ‘examinar’ meu ânus e verificar se o ‘Camarão’ havia praticado sodomia comigo. Esse mesmo ‘Márcio’ obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante esse período fui estuprada duas vezes pelo ‘Camarão’ e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros”.

Ignez Maria Raminger – estudante de Medicina Veterinária presa em 1970, em Porto Alegre, onde trabalha atualmente como técnica da Secretaria de Saúde. “Fui levada para o Dops, onde me submeteram a torturas como cadeira do dragão e pau de arara. Davam choques em várias partes do corpo, inclusive nos genitais. De violência sexual, só não houve cópula, mas metiam os dedos na minha vagina, enfiavam cassetete no ânus. Isso, além das obscenidades que falavam. Havia muita humilhação. E eu fui muito torturada, juntamente com o Gustavo [Buarque Schiller], porque descobriram que era meu companheiro”.

Dilea Frate – estudante de Jornalismo presa em 1975, em São Paulo. Hoje, vive no Rio de Janeiro, onde é jornalista e escritora. “Dois homens entraram em casa e me sequestraram, juntamente com meu marido, o jornalista Paulo Markun. No DOI-Codi de São Paulo, levei choques nas mãos, nos pés e nas orelhas, alguns tapas e socos. Num determinado momento, eles extrapolaram e, rindo, puseram fogo nos meus cabelos, que passavam da cintura”.

Cecília Coimbra – estudante de Psicologia presa em 1970, no Rio. Hoje, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais e professora de Psicologia da Universidade Federal Fluminense: “Os guardas que me levavam, frequentemente encapuzada, percebiam minha fragilidade e constantemente praticavam vários abusos sexuais contra mim. Os choques elétricos no meu corpo nu e molhado eram cada vez mais intensos. Me senti desintegrar: a bexiga e os esfíncteres sem nenhum controle. ‘Isso não pode estar acontecendo: é um pesadelo… Eu não estou aqui…’, pensei. Vi meus três irmãos no DOI-Codi/RJ. Sem nenhuma militância política, foram sequestrados em suas casas, presos e torturados”.

Maria Amélia de Almeida Teles – professora de educação artística presa em 1972, em São Paulo. Hoje é diretora da União de Mulheres de São Paulo. “Fomos levados diretamente para a Oban. Eu vi que quem comandava a operação do alto da escada era o coronel Ustra. Subi dois degraus e disse: ‘Isso que vocês estão fazendo é um absurdo’. Ele disse: ‘Foda-se, sua terrorista’, e bateu no meu rosto. Eu rolei no pátio. Aí, fui agarrada e arrastada para dentro. Me amarraram na cadeira do dragão, nua, e me deram choque no ânus, na vagina, no umbigo, no seio, na boca, no ouvido. Fiquei nessa cadeira, nua, e os caras se esfregavam em mim, se masturbavam em cima de mim. Mas com certeza a pior tortura foi ver meus filhos entrando na sala quando eu estava na cadeira do dragão. Eu estava nua, toda urinada por conta dos choques”.

São muitos os depoimentos, que nos deixam envergonhados, indignados, estarrecidos, duvidando da natureza humana, especialmente porque sabemos que não foi uma aberração, um desvio de conduta de alguns indivíduos criminosos, mas uma política de Estado, que estimulou a tortura, a ponto de garantir a não punição a seus autores, com a concordância e a conivência de muita gente boa “em nome da conciliação nacional”.

No lançamento do livro na PUC, a enfermeira Áurea Moretti, torturada em 1969, pediu a palavra para dizer que a anistia foi inócua, porque ela cumpriu pena de mais de quatro anos de cadeia, mas seus torturadores nem sequer foram processados pelos crimes que cometeram: “Uma vez eu vi um deles na rua, estava de óculos escuros e olhava o mundo por cima. Eu estava com minha filha e tremi”.

Os fantasmas que ainda assombram nossa história recente precisam ser exorcizados, como uma garantia de que nunca mais possam ser ressuscitados – escreve a ministra Nilcea Freire, ex-reitora da UERJ, na apresentação do livro, que para ela significa o “reconhecimento do papel feminino fundamental nas lutas de resistência à ditadura”.

Este é o terceiro livro da série “Direito à Memória e à Verdade”, editado pela Secretaria de Direitos Humanos (SEDH) em parceria com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. O primeiro tratou de 40 afrodescendentes que morreram na luta contra o regime militar. O segundo contou a “História dos meninos e meninas marcados pela ditadura”. Eles podem ser baixados no site da SEDH.

O golpe militar de 1964 que envelhece, mas não morre, completa 46 anos nos próximos dias. Essa é uma ocasião oportuna para lançar o livro em todas as capitais brasileiras. No Amazonas, as duas reitoras – Marilene Correa da UEA e Márcia Perales da UFAM – podiam muito bem organizar o evento em Manaus e convidar a sua colega Nilcea Freire para abri-lo. Afinal, preservar a memória é um dos deveres da universidade. As novas gerações precisam saber o que aconteceu.

A lembrança de crimes tão monstruosos contra a maternidade, contra a mulher, contra a dignidade feminina, contra a vida, é dolorosa também para quem escreve e para quem lê. É como o sacrifício da missa para quem nele crê. A gente tem de lembrar diariamente para não ser condenado a repeti-lo: fazei isso em memória delas.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

Ruth Alexandre: Meu aborto e a criminalização

Por Conceição Oliveira do Blog Maria Frô, twitter: @maria_fro

A jornalista Ruth Alexandre me enviou por mail seu relato no dia em que o publicou em seu blog. Mas no mar de mails, acabei perdendo-o e esquecendo de trazê-lo para cá.

Ruth narra alguns casos de mulheres que tiveram seus direitos à saúde negados por aqueles que deveriam socorrê-las e conta-nos como ela própria quase morreu quando estava na ’salinha do pau’ – a triagem – sob interrogatório de uma profissional de saúde que a julgava ao invés de socorrê-la.

Talvez, se dermos alguma humanização  para as estatísticas, possamos sentir um pouco a concretude do problema e avaliar o aborto com olhos voltados à saúde pública. Vai pensando aí.

Meu aborto e a criminalização
Por: Ruth Alexandre de Paulo Mantoan, no Fala Povo
07/11/2010

J., presa em 2003, algemada na cama do hospital, uma mulher negra, empregada doméstica, que vivia em uma região pobre e periférica do Rio de Janeiro, interrompeu a gravidez de 4 meses, porque já não tinha mais como sustentar seus outros seis filhos. Suas declarações, onde confessa o crime, foram tomadas enquanto recebia tratamento médico. Deixou o hospital e foi diretamente para a prisão, sem receber qualquer orientação jurídica.

Código Penal Brasileiro (decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940)

Art. 124 – Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque:

-Pena – detenção, de um a três anos.

Art. 125 – Provocar aborto, sem o consentimento da gestante:

-Pena – reclusão, de três a dez anos.

Art. 126 – Provocar aborto com o consentimento da gestante:

-Pena – reclusão, de um a quatro anos.

Durante o período eleitoral uma das campanhas, com a ajuda de setores conservadores de igrejas cristãs, e inclusive do Papa, na reta final, tentaram impor a discussão do aborto, com o claro objetivo de favorecer a candidatura de sua preferência. Eu que teimosamente continuo católica , confesso que senti muita vergonha de ver minha religião usada como ferramenta de pressão no processo de decisão eleitoral. Mas a então candidata Dilma Rousseff não se deixou pressionar pelos salteadores que tentavam jogá-la contra a opinião pública. Até Mônica Serra, esposa do então candidato José Serra, chegou a afirmar que Dilma era a favor de “matar criancinhas”, para depois se calar quando suas ex-alunas vieram a público afirmar que ela, Mônica Serra, já havia contado às alunas a experiência dolorosa do aborto que provocou no passadao. Não vou retomar todo o farisaísmo e cinismo praticado pelos que tentaram usar a discussão sobre a discriminalização do aborto para obter seus proveitos. Quero sim jogar luz sobre essa discussão tão importante e controversa para mulheres e homens.

Antes de mostrar alguns números pesquisados quero falar rapidamente da experiência com o fato, tanto a minha pessoal, como a de pessoas próximas.

Ainda adolescente acompanhei o caso de uma garota de classe média alta que engravidou de um rapaz que a família não aceitava. Os pais a obrigaram a abortar e a reconstituir o hímen. Tudo “resolvido” em uma clínica. Por um tempo, ela entrou em depressão, não falava com ninguém só comigo. Lembro também de uma outra amiga muito querida. Du, nordestina porreta, risonha. Quando ela dormia em casa eu escondia seu maço de cigarros só pra sacanear. Era tão magrinha que um dia a enxurrada a arrastou em uma ladeira. Casou, teve três abortos espontâneos, no terceiro morreu em um hospsital público. Uma outra, casada, três filhos, não sei por qual motivo fez um aborto, católica contou a um padre. Coitada, quase enlouqueceu, me confidenciou. Só conseguiu se recuperrar quando conversou com um outro padre. Conheci também uma mulher jovem, casada que contava sobre os abortos que praticava. Ela tinha inclusive uma mulher para fazer o “serviço”, acho que fixa. Segundo ela a mulher usava uma colher para provocar o aborto. Um dia eu perguntei porquê. Ela respondeu: “Como eu ia explicar pro meu marido um filho japonês”. Achei importante citar também este último caso. Porque às vezes tenho a impressão que este é o quadro que mais agrada a alguns.

Meu aborto e a criminalização – parte 2

Em 1992 eu estava sentada, escrevendo em um caderno na mesa da cozinha e conversando com Marieta, minha fiel escudeira, que lavava louças na pia. De repente senti uma dor muito forte que dificultava até a respiração. No quarto, na parte de cima, meu marido que fizera plantão na madrugada, dormia. De costas a Marieta nem percebeu. Levantei e passei pela sala bem devagar. Subi as escadas com dificuldade, com muito medo. Eu não sabia o que estava acontecendo, só sabia que devia ser muito sério. Acordei meu marido que correu para aquecer toalhas. Eu disse a ele que não eram cólicas menstruais. Era uma dor diferente. Ele ligou para o Dr. Edmund Chad Baracat, meu médico até hoje, ele estava fora do Brasil, em Congresso. Meu marido me colocou no banco deitado do carro e segiu para o Pronto Socorro do Hospital 9 de julho. Eu mal falava no percurso. Agora é que vem o mais interessante para esta discussão. Chegando na triagem, uma moça, não sei se enfermeira, médica ou atendente, começou a me fazer perguntas. Como eu estava com muita dor eu imaginava que ela logo que soubesse já fosse providenciar algum tipo de socorro, qual nada. Eu nunca fui interrogada por um delegado, mas já vi muito em filmes. Só faltou a luz sobre a cabeça e o detector de mentiras. Ela perguntava e tornava perguntar: Você esta abortando? Eu respondia que não sabia. Nem sabia se estava grávida…. Não tinha sangramento. Você tomou alguma coisa? Inqueria a “dra. Delegada de jaleco branco”, até que eu respirei, olhei nos olhos dela (fico emocionada lembrando) e disse: Você não percebe que eu não estou bem. É impossível que minha aparência não demonstrasse o que eu sentia. O tempo não me permite saber quanto tempo durou. Fui levada para a emergência e Deus colocou no meu caminho um médico competente: Fábio Laginha. A esta altura eu já havia começado a desmaiar. A sensação era de morte. O que as pessoas falavam ia ficando longe e escurecia minha visão. O médico diagnosticou: “Eu sou proibido de operar você sem fazer os exames, mas está com uma gravidez ectópica (nas trompas)”. Fizeram uma série de exames e descobriram que eu estava com um sangramento interno. A anestesia não pegou, eu já tinha 1,5 litros de sangue derramado dentro mim. Se pensarmos que temos 4,5 litros, é só fazer as contas. Estive por um triz. Fiz uma cirurgia a sangue frio. Ninguém consegue imaginar o que significa. Não tive sequelas. Oito anos depois dei à luz meu filho caçula.

Fico pensando, será que minha amiga Dú foi atendida de pronto ou morreu porque ficou muito tempo dando explicações “na salinha do pau”, vulgo triagem? Vou ficar com esta dúvida para sempre, com realação à ela e às outras tantas mulheres que morrem por complicações pós-aborto.

Temos que tomar uma decisão. Mesmo que eu tivesse provocado o aborto. É aquele papel desempenhado pela profissional de saúde, que me atendeu, que a sociedade espera quando uma mulher em risco iminente de morte chegar em um pronto socorro? Nossa presidenta eleita, Dilma Rousseff respondeu aos fariseus e cínicos: “Entre prender e atender, prefiro atender”. Eu faço coro: entre prender e atender eu quero que elas sejam atendidas.

Segundo informações do Ministério da Saúde, a partir da década de 1990, o aborto induzido foi a terceira ou quarta causa de mortalidade materna em várias capitais brasileiras.

Apesar de nunca ter provocado um aborto e ser pessoalmente contra, baseada na realidade, penso que lei de aborto não impede aborto. Tanto é verdade que apesar da lei, pesquisa do Ministério da Saúde apontou 5 milhões de brasileiras de 18 a 39 anos que praticaram ao menos um aborto. E que 15% delas se declaram católicas, 13% evangélicas e 16% outras religiões. Na minha forma de ver o pode impedir aborto são políticas sociais.

Meu aborto e a criminalização – Final

Um estudo do Ministério da Saúde, pode ser um indício do que eu e algumas pessoas pensamos. Os métodos abortivos nos anos 80 eram chás, sondas, objetos perfurantes e líquidos cáusticos além do recurso às “curiosas” e clínicas privadas. Em 1990 e 2000, análise dos estudos nacionais mostravam o uso do misoprostol (Cytotec). Enquanto a venda do Cytotec não estava proibida em farmácias no Brasil o estudo mostrou que não houve aumento no atendimento pós-aborto. Ou seja o medicamento não provocou uma “epidemia “, um aumento, de abortos no Brasil.

Segundo dados do Center for Reproductive Rights, organização norte-americana voltada para o tema, em 56 países, que representam 40% da população mundial, o aborto é permitido sem nenhuma restrição até a 12ª semana gestacional. O Brasil está incluído em um grupo de 68 países, com 26% da população mundial, nos quais a prática só é admitida em circunstâncias específicas.

Estudo com 11 mulheres processadas judicialmente por aborto induzido nos anos 2000, mostrou que elas iniciaram o aborto com medicamento e que quase metade foi denunciada à polícia por médicos que as atenderam nos hospitais, muito embora a denúncia seja uma violação de princípios éticos fundamentais à saúde pública e à função médica, as mulheres não têm a garantia do sigilo, durante a fase de hospitalização. Quase todas as participantes do estudo foram processadas.

Três casos de mulheres processadas criminalmente, descritos resumidamente:

O caso J., presa em 2003, algemada na cama do hospital, uma mulher negra, empregada doméstica, que vivia em uma região pobre e periférica do Rio de Janeiro, desesperada decidiu interromper a gravidez de 4 meses, porque já não tinha mais como sustentar seus outros seis filhos. Utilizou o medicamento Misoprostol e ervas para realizar o aborto, o que lhe causou graves danos à saúde. Esses danos foram ainda piores pelo fato de ter sido denunciada enquanto buscava atendimento médico em um hospital público da região. Suas declarações, onde confessa o crime, foram tomadas enquanto recebia tratamento médico. Deixou o hospital e foi diretamente para a prisão, sem receber qualquer orientação jurídica.

O caso G., uma mulher que foi denunciada no Centro-Oeste do país, no ano 2007. A denúncia teve sua origem a partir de uma grande operação policial que inaugurou um novo modelo de investigação deste tipo de crime nas clínicas clandestinas de aborto, no qual se realiza a apreensão das fichas médicas das pacientes. Esta operação culminou na investigação de mais de nove mil mulheres da região, uma delas G., cuja ficha médica foi apreendida e manipulada pelos policiais na delegacia e ao longo de seu interrogatório. Ela teve seu nome publicado no site do Tribunal de Justiça como uma das mulheres denunciadas e tenta, até hoje, esconder de sua família e no trabalho que está sendo demandada criminalmente.

O caso M., data de julho de 2009. Trata-se de um caso de prisão em flagrante, que ocorreu momentos depois da realização do procedimento em uma clínica clandestina em um bairro da zona sul do Rio de Janeiro. M. foi fotografada, pelos policiais, ainda anestesiada, em uma cama ginecológica, as imagens foram utilizadas no processo judicial que a incrimina. Ela foi presa em flagrante e obrigada a pagar uma fiança para responder ao processo em liberdade. Não recebeu nenhuma recomendação jurídica na delegacia onde confessou o “crime”. Atualmente, recebe a assistência da defensoria pública, mas apesar da grande qualidade técnica deste órgão, o mesmo não reconhece as violações de direitos humanos envolvidos neste tema.

FOnte: http://www.viomundo.com.br/blog-da-mulher/ruth-alexandre-meu-aborto-e-a-criminalizacao.html

Deixe um comentário

Arquivado em feminismo, Uncategorized

A violência contra a mulher e o capitalismo

Eliza, Mércia, Eloá, Aline, Daniela, Maria. Infelizmente os casos de violência contra a mulher não são fatos isolados. Eliza Samudio há oito meses havia denunciado o jogador do Flamengo, Bruno Maria Islanine, assassinada em janeiro pelo ex-marido, fez oito denúncias antes de ser morta.

Segundo dados do Mapa da Violência no Brasil 2010, realizado pelo Instituto Sangari, entre os anos de 1997 e 2007, mais de 41.000 mulheres foram assassinadas no Brasil, um índice de 4,2 % por 100.000 habitantes, bem acima da média internacional. Entre os casos, a maioria dos agressores tinha algum tipo de relação conjugal com as mulheres, como identifica o Núcleo de Violência da Universidade de São Paulo.

A cada 15 segundos uma mulher é agredida no Brasil, conforme relata pesquisa da Fundação Perseu Abramo. Já na América Latina, segundo dados divulgados pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), 45% das mulheres da região já sofreram ameaças de seus parceiros.

A Lei Maria da Penha, aprovada em 2006, é uma legislação avançada, mas sua aplicação ainda é muito lenta e não há um sistema que garanta proteção às mulheres vítimas de violência. Apenas 7% dos municípios brasileiros possuem Delegacias da Mulher; as casas que acolhem mulheres em situação de violência, com endereço sigiloso, não dão conta da demanda. Além disso, quando alguns casos são pauta da grande mídia, geralmente tenta-se culpabilizar as mulheres, desqualificando-as e tentando justificar, de alguma maneira a agressão, como tem ocorrido no caso de Eliza.

O contexto histórico e social
Quando vemos casos de violência de homens contra mulheres devemos conseguir ver além do caso em si. Precisamos nos perguntar por que tantas mulheres são vítimas da violência e como se dão as relações de gênero dentro de uma sociedade capitalista.

Esse tipo de violência atinge principalmente as mulheres trabalhadoras, que encontram maior dificuldade de sair dessa situação. Além dos entraves afetivos e culturais – questões morais e de costumes da sociedade – as mulheres trabalhadoras possuem o obstáculo econômico. Em relatos coletados pela pesquisa Ibope sobre “A percepção da violência doméstica contra a mulher no Brasil”, a falta de condições econômicas para viver sem o cônjuge é o principal motivo que mantém a mulher em uma relação na qual ela é agredida.

As mulheres não foram sempre oprimidas. Segundo Friedrich Engels, em seu livro A origem da família da propriedade privada e do Estado,  a opressão da mulher coincide com o surgimento da propriedade privada e o fim do comunismo primitivo, quando os seres humanos passam a produzir além do suficiente para se viver, resultado de desenvolvimentos técnicos.  Nesse momento, alguns passam a se apropriar da produção que antes era destinada a todos, acarretando o surgimento da propriedade privada. A partir desse momento, os homens, com o objetivo de garantir a herança aos seus filhos legítimos, passam a controlar as mulheres e seus corpos como se fosse uma de suas propriedades.

Percebe-se, então, que o pensamento patriarcal precede ao surgimento do capitalismo. No entanto, o patriarcalismo serve perfeitamente a esse sistema.

Para um sistema que explora toda uma classe trabalhadora para favorecer uma pequena parcela da população, a burguesia, a opressão e submissão das mulheres pelos homens, é um forte instrumento de manutenção de suas estruturas. Ao longo da história, por estarem dedicadas às atividades domésticas e à criação dos filhos, não tiveram seu trabalho reconhecido, e este ficou invisível.

Para que o Estado burguês não precise investir em creches, escolas, lavanderias coletivas ou restaurantes populares, responsabilizam-se as mulheres por essas tarefas. Assim, o salário dos trabalhadores pode ser muito menor, já que uma parte dos serviços que deveriam ser inclusos em seus gastos, não precisam ser pagos pelo patrão. Neste contexto, no qual a mulher é uma propriedade de seu cônjuge e responsável pelos afazeres domésticos, os homens encontram justificativas para agredi-las caso essas mulheres saiam destes padrões.

Para além do âmbito privado, a mulher, nos espaços públicos, tem de trabalhar tanto quanto o homem. Com isso ela é duplamente explorada, o que colabora com a sustentação do sistema capitalista.

Hoje, com o amplo desenvolvimento tecnológico, temos condições de produzir para que todos os seres humanos tenham condições de trabalhar, alimentar-se e viver dignamente. Temos condições de que mulheres e homens vivam em plena igualdade. No entanto, isso não interessa à pequena parcela da população favorecida pelo capitalismo,  que se apropria de toda a riqueza produzida pela classe trabalhadora. Fazendo fortalecer essa sociedade na qual tudo é considerado mercadoria, inclusive as mulheres, que têm sua imagem utilizada indiscriminadamente em propaganda de todo tipo e expondo seus corpos de maneira a agradar os homens, tornando-as algo que se pode comprar.

Apenas com o fim do sistema capitalista e com a construção da sociedade socialista é que será possível acabar com essa opressão. Isso porque a opressão da mulher não é algo apenas cultural, mas tem bases concretas, materiais, fundamentais ao capitalismo. Dessa maneira, apenas com a mudança dessas bases é que será possível também transformar a vida das mulheres trabalhadoras, dando condições de se tornarem livres, como classe trabalhadora e como mulheres.

Coletivo de Mulheres Comunistas Carla Maria, São Paulo
http://www.averdade.org.br/modules/news/article.php?storyid=534

Fonte: http://arttemiarktos.wordpress.com/2010/11/25/a-violencia-contra-a-mulher-e-o-capitalismo/

Deixe um comentário

Arquivado em feminismo

A timoneira do aborto

Rebecca Grompers acredita que mulheres não devem ser proibidas de interromper a gravidez. Nem que para isso elas precisem ser levadas a alto-mar

A holandesa Rebecca Grompers foi incisiva quando perguntei se o bebê que ela espera para abril tem nome decidido. “Não é um bebê, é um feto.” A precisão das palavras não é à toa: fundadora da Women on Waves (Mulheres Sobre Ondas), ela comanda uma das mais polêmicas organizações pró-legalização do aborto no mundo. Viaja de navio para países em que a interrupção da gravidez é proibida e recolhe mulheres que desejem fazê-la. Leva todas para águas internacionais (onde vigoram leis holandesas, país de origem da embarcação) e distribui pílulas que colocam fim ao desenvolvimento do feto ou criança – dependendo de qual lado do debate você está.

A ONG escolhe como alvo países com legislações consideradas “severas”. É o caso do Brasil, que Rebecca lista entre os mais rigorosos do planeta, apesar das recentes propostas do governo Lula de relaxar punições e abrandar a lei. Por onde passa, a Women on Waves causa turbulência. Na expedição a Portugal, em 2004, foi proibida pelo Estado de embarcar mulheres. A repercussão do imbróglio foi tão grande que após a saída dos ativistas 60% dos portugueses se diziam a favor da descriminalização do aborto e 77% queriam um plebiscito sobre o tema. Vitória? “Só comemorarei quando todos países permitirem que mulheres não precisem morrer para fazer um aborto”, diz a holandesa.

Quem são as pessoas que buscam ajuda da Women on Waves?
Mulheres que querem interromper a gravidez e não têm condições financeiras para isso. Em todos os países em que o aborto é ilegal, ele também é muito caro. Sabemos que a maioria das mulheres que buscam orientação em nossa linha telefônica está entre 30 e 40 anos, é mãe de pelo menos um filho e não tem recursos econômicos – ou emocionais – para criar mais uma criança. Conversamos muito com todas para buscar opções e ter certeza de que elas realmente necessitam interromper a gravidez. Se for esse o caso, oferecemos a pílula do aborto e auxílio médico.

O medicamento que vocês utilizam é descrito pelo FDA como inadequado para o aborto e causador de efeitos colaterais que incluem hemorragia e ruptura do útero. Ele não coloca em risco a vida dessas mulheres?
Se for utilizado apenas uma vez, na dose correta e até a nona semana de gravidez, não há risco. O problema são as mulheres que tomam 20 pílulas de uma vez, o que é errado. Em cinco anos de trabalho, nunca tivemos complicações médicas por causa desse remédio. É importante ter em mente que nada coloca mais em risco a saúde das mulheres que manter o aborto na ilegalidade. A cada ano, morrem 80 mulheres que fizeram abortos dentro da lei contra 80 mil mulheres que se submeteram a abortos clandestinos.

Quais os valores defendidos pelo movimento pela legalização do aborto?
Em primeiro lugar, ninguém é pró-aborto. Nenhuma mulher quer passar por essa experiência. Somos pró-direito de abortar. Nosso valor fundamental é olhar as conseqüências da ilegalidade. O aborto é a intervenção médica mais praticada no mundo e proibi-lo não o evita. Essa é a realidade. Dos 47 milhões feitos a cada ano, 20 milhões são ilegais. Nossa causa envolve compaixão, autonomia e saúde das mulheres. Nossos adversários, por sua vez, gostam de se chamar “movimento pró-vida”, mas não estão nem aí para a vida das mulheres. Eles têm apenas argumentos religiosos. O problema é que o fundamento de uma sociedade democrática é separar religião e Estado. A cada 6 minutos, uma mulher morre por causa de um aborto ilegal. Precisamos olhar para as pessoas que estão aqui, não para fetos que não têm autonomia humana ou direito à vida.

E quem tem direito à vida?
A maioria dos médicos concorda que um feto de até 24 semanas de idade não tem chance de sobreviver fora do útero. Ele não tem sentimentos, consciência e autonomia – há uma dependência completa do corpo da mãe. Concordo que é uma forma de vida, sim, mas decidir qual o momento exato que transforma um feto em ser humano é uma questão pessoal. A Igreja Católica diz que é a concepção. Para os muçulmanos, isso acontece entre o 80º e o 100º dia da gravidez, quando Alá sopra a vida no bebê. Os budistas, por sua vez, acreditam que até uma mosca é uma forma de vida que não pode ser morta. Ou seja: cada pessoa tem opinião diferente e deve ter liberdade para escolher o que acha melhor. Só não entendo por que precisamos entrar nesse debate filosófico sobre quando começa a vida. Esse não é o ponto mais importante. A questão central é: mulheres fazem abortos e elas precisam ter o direito de interromper uma gravidez sem colocar em risco a própria saúde.

Desde a fundação, a Women on Waves visitou apenas países católicos. Qual o motivo dessa estratégia?
Não objetivamos países católicos, mas é importante lembrar que a Igreja Católica foi a maior indutora da proibição e a maioria dos protestantes permite o aborto. Há cerca de 150 anos, interromper a gravidez era tolerado. Só em 1869 um papa, Pio IX, declarou que a vida começa na concepção. É uma história interessante: Pio IX precisou fugir para a França e lá conviveu com Napoleão III. O imperador tinha problemas com a baixa natalidade, que atrapalhava seus planos de industrialização. Então, conseguiu que o papa declarasse que a alma humana era incorporada com a concepção. Em troca, a França o ajudou a retomar sua posição no Vaticano. Dizer que o aborto é pecado foi uma decisão política, como tantas outras da Igreja.

Agir no Brasil está em seus projetos?
Queremos visitar o Brasil, mas não temos planos concretos. A lei brasileira é bastante dura e o problema com abortos ilegais, enorme: são cerca de 1,5 milhão por ano, que levam quase 300 mil mulheres aos hospitais por complicações. Quase todas pobres, que recorrem a métodos como pular de escadas ou introduzir agulhas sujas na vagina.

Comparada a outros países, como você classifica nossa lei sobre aborto?
O Brasil possui uma das legislações mais rigorosas do mundo, assim como a maioria das nações sul-americanas, asiáticas e a Irlanda. Uma pessoa vai para a cadeia se fizer um aborto a não ser em situações de estupro ou risco de morte para a mãe. Mesmo nesses casos, é preciso enfrentar uma batalha na Justiça. É surpreendente saber que uma decisão recente do Supremo Tribunal brasileiro proibiu o aborto mesmo quando o feto não tem cérebro. As pessoas precisam entender que gravidez e parto colocam em risco a saúde das mulheres. Como podemos acreditar que um feto sem possibilidade de sobreviver é mais importante que a vida da mãe dele? Qual o sentido disso?

Pesquisas de opinião mostram que a lei brasileira está de acordo com o que pensa a maioria da população. O aborto deve ser legalizado mesmo afrontando as convicções dos brasileiros?
Sim. Estamos falando do direito à privacidade e à saúde. Isso não deve ser decidido pela maioria. Precisamos lembrar também que as implicações vão muito além, são muito maiores que o debate entre direitos da maioria e da minoria. O que acontece com a criança que não é desejada pelos pais? Com as crianças em orfanatos, abandonadas em banheiros públicos? O que estamos fazendo com as pessoas, forçando-as a passar por essa situação?

Você já fez um aborto?

Não é minha vida pessoal que está em jogo. Mas, como toda mulher, eu poderia muito bem ter passado por isso.

Fonte:http://arttemiarktos.wordpress.com/2010/10/19/a-timoneira-do-aborto/

1 comentário

Arquivado em feminismo, Uncategorized