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Cerveja é bebida masculina, certo?

Por Maria Beatriz (@imbiacentrismo)
Cinco homens brancos bebem cerveja num quiosque de praia. Um deles questiona: “E se nós fôssemos invisíveis?” Já no plano imaginário, uma lata de cerveja flutuante representa o homem invisível, que sacaneia o jogador de frescobol, passa a mão em uma das mulheres da praia, e, por fim, entra no vestiário feminino, aterrorizando as mulheres, que saem correndo semi-nuas.
 
É esta a história da propaganda “Homem Invisível”, da marca de cervejas Nova Schin, que é veiculada há meses na TV. Porém, só por esses dias o conteúdo da campanha publicitária começou a ser debatido nas redes sociais, já causando o devido alvoroço e trazendo à tona reflexões necessárias sobre a mulher na indústria publicitária – mais especificamente no mercado da cerveja.
 
 
Mulheres saem correndo assim que “Homem Invisível” invade o vestiário feminino
Num primeiro olhar, parece uma campanha inofensiva, apenas dotada de viés cômico. Num segundo olhar, já é possível sentir uma repulsa pelo o que, mascarado com o tal de “humor”, é retratado na propaganda: mais um dos manifestos de desrespeito e objetificação da mulher no mercado da cerveja. Sem contar com o ingrediente especial desta em questão: a apologia ao estupro.
 
Analisemos: o ambiente é dos homens (o gênero que, segundo a indústria, bebe cerveja), e então, os caras resolvem imaginar o que fariam se fossem invisíveis. Numa das hipóteses, entram num vestiário feminino, e as moças logo saem correndo, com rostos aterrorizados. Os homens, ao imaginarem a cena, caem na risada – afinal, nada mais normal do que invadir o espaço das mulheres e fazerem o que bem entendem com elas. Não importa o medo que elas sentiriam, ou a invasão da intimidade delas, só importa o prazer que sentirão ao usufruir da situação.
 
O comercial em questão corrobora a cultura de estupro vigente em nosso país. Esta cultura, que forma seres humanos que determinam aceitável estuprar uma mulher pela roupa que veste, passar a mão em uma mulher que dançava com sensualidade na pista de dança, ou, desamarrar os biquínis de mulheres por diversão. Pior do que aceitável, seres pensantes que acham tudo isso engraçado.
Os “brincalhões” acham tudo muito divertido e inofensivo. Só que não.
Não, não é engraçado. Não é engraçado, pois é por causa destas “piadinhas” que mulheres são abusadas sexualmente todos os dias. É por causa destas “brincadeirinhas” que mulheres cada vez mais são usadas como instrumento de prazer sexual do homem. Basta.
 
Muitos homens pensam: “nunca estuprei uma mulher”, pois este tipo de abuso é banalizado, principalmente, pela mídia. Porém, mal sabem muitos deles que, abuso não se restringe à penetração vaginal. Desde 2009, abuso sexual se refere à qualquer ato libidinoso praticado sem consentimento. Se você já passou a mão na bunda de uma mulher sem o consentimento da mesma, você já estuprou. Se você já praticou qualquer ato que te desse prazer, sem a autorização da outra pessoa, você já estuprou. 
 
O que a marca Nova Schin faz é prestar um desserviço à sociedade, e principalmente, às mulheres, ao colocá-las como uma piada para os homens se deliciarem. Chega. A cultura de estupro existe, os homens dispostos a praticar tais atos existem, e a mídia tem que parar de validar esta linha ascendente de desrespeito e desvalorização da mulher.
 
Porém, a mídia gira em torno do dinheiro. É verdade, desde que o mundo é mundo – a mídia não se importa com o que é certo ou o que não é: se importa com o que trará benefícios para si mesma. “Se o povo é machista, intolerante e ignorante quanto à condição das mulheres, vamos concordar e lucrar em cima deles!”, pensam.
 
Na propaganda da Skol, a mulher é a serviçal do homem, e quando cansa disso, está “rebelando-se inexplicavelmente”
 
 
A indústria da cerveja é um exemplo claro do desinteresse da mídia em mudar qualquer imagem errada que a sociedade tenha. O comercial da Nova Schin é o debate do momento, mas não é de hoje que propagandas de cerveja diminuem e ridicularizam as mulheres.
 
O que dizer da, até recente, campanha publicitária da Skol? Para promover seu novo cooler controlado por controle remoto, a propaganda conta a história de um casal de namorados. “No começo, tudo é lindo” – passa para a imagem da mulher levando cerveja para o marido. A mulher, segundo a Skol, está cumprindo seu papel num lindo início de relacionamento: sendo a serviçal do homem. 
 
“Mas aí, um dia, inexplicavelmente, elas se rebelam” passa para a imagem da mulher, com uma pilha de pizzas nos braços, dizendo para o namorado ir buscar a própria cerveja. O cara, por sua vez, está sentado jogando videogame com os amigos. E a mulher, mesmo “se rebelando”, continua sendo a serviçal do homem, apenas reclamando da sobrecarga de tarefas. Um minuto de silêncio para os engulhos ao final propaganda, quando, olhando para as estrelas, o homem abraça sua namorada, e, despistadamente, a solta e abraça o cooler. Burp.
 
Sem contar que, quando a mulher não é a serviçal ou o instrumento de prazer do homem, ela é a recompensa. Inúmeras são as campanhas publicitárias onde, o homem abre uma cerveja gelada, da marca que for, e se depara com sua recompensa: uma mulher “gostosa” dando em cima, querendo sentar à sua mesa, de biquíni, e o mais usual: os servindo. 
A Devassa não é a loura que bebe – é a cerveja que o homem compara à mulher.
 
Existe uma marca de cerveja que alguns dizem ser direcionada às mulheres: a Devassa. Porém, é um exemplo claro de outra visão machista da indústria da cerveja: só quem merece sentar numa mesa de bar e beber é uma mulher linda e gostosa. Nas propagandas da Devassa, a mulher pode até beber, mas tem que ser uma Paris Hilton ou uma Sandy. 
 
Por outro lado, a Devassa continua a linha de objetificação da mulher. A Devassa, bem loura, é a que vai subir no palco, e dançar conga la conga (exatamente como Sandy fez) enquanto o homem está sentado à mesa, assistindo ao show. A Devassa bem loura é a mulher gostosa. É a loura que o homem vai beber, ou seja, a mulher da qual ele vai usufruir.
 
Mulher: ou serviçal, ou recompensa. Consumidora? Nunca!
 
 Após tantos exemplos (e sempre chegam novos exemplos a cada campanha publicitária), a pergunta é quase uma afirmação: cerveja é bebida masculina, certo? Não, não tá certo. Tá muito errado. Mulheres representam 1/3 dos consumidores de bebida alcoólica. 
 
Mulheres trabalham e pagam sua própria cerveja, sentam na mesa do bar com as amigas e gostam de beber cerveja – não são as garçonetes gostosas que servem os homens, nem as serviçais dos namorados. Está mais do que na hora da indústria da cerveja parar de tratar os homens como os únicos consumidores de sua bebida, e as mulheres, como as empregadas e recompensas.
 
Diante do desserviço às mulheres por parte da indústria da cerveja, refletimos: qual seria a solução? Apelar para o CONAR, que, como na questão da Nova Schin, resolveu ignorar o caso? Boicotar as marcas de cerveja? Parar de tomar cerveja? Não sei. 
 
Mas fica a dica de que, se aparecesse uma marca de cerveja com peito o bastante para se direcionar às mulheres com respeito, como consumidoras e não serviçais, ia ser de longe o maior sucesso. Mas ao que me parece, publicitários não leem blogs feministas. Uma pena. 
 
O Ativismo de Sofá também falou sobre a cultura de estupro e o novo comercial da nova Schin
Sugerimos a leitura do Machismo chato de cada (todo) dia, no qual há uma série de post sobre o Machismo da Nova Schin sobre nós mulheres!!

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I Encontro de Blogueir@s e Tuiteir@s do Rio Grande do Sul

A democratização da comunicação passa pelos meios digitais, segundo os organizadores do I Encontro de Blogueir@s e Tuiteir@s do Rio Grande do Sul. Já estão abertas as inscrições para o evento, nos dias 27, 28 e 29 de maio, que tem como objetivo discutir de que forma os agentes da internet podem atuar para pluralizar a voz da sociedade.

Cerca de 200 autores de blogs e ativistas das redes sociais digitais são esperados na Câmara Municipal de Porto Alegre, para participar da programação, que aborda políticas públicas para os meios digitais, internet como instrumento para a democratização da comunicação, viabilização profissional do trabalho na rede, oficinas de tecnologia, debates de experiências e atividades de rua. Ao final do encontro, será elaborada uma carta dos participantes para apresentar as propostas na área e levar a discussão para o II Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, em junho, em Brasília.

O evento, que vem sendo chamado nas redes sociais apenas de #BlogProgRS (o sustenido é o símbolo usado para formar as chamadas tags, ou seja, agrupar conteúdo em torno de um termo), surgiu como consequência do I Encontro Nacional, em 2010. Mais de 300 blogueiros se reuniram em São Paulo para fortalecer a blogosfera como uma alternativa ao discurso único e hegemônico dos meios de comunicação tradicionais e definiram a realização de encontros do mesmo tipo nos estados.

Encontros regionais vêm acontecendo em diversas regiões do país. O encontro gaúcho deve contar com transmissão ao vivo pela internet, para que possa ser acompanhado em todo o país e no interior do estado. Os organizadores ressaltam, no entanto, que a troca de experiências é mais rica quando presencial e contribui para o fortalecimento da rede virtual de blogs. Para participar presencialmente, as inscrições custam R$ 30, com 50% de desconto para estudantes, e podem ser feitas pelo site http://blogprogrs.com.br/inscricao.

Datas: 27, 28 e 29 de maio
Local: Câmara Municipal de Porto Alegre
Endereço: Av. Loureiro da Silva, 255; Porto Alegre-RS

Inscrições gratuitas Inscreva-se!

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Xenofobia? Não obrigada!Prefiro Direitos Humanos

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Sexismo na política digital do twitter

por Conceição Oliveira

Caras leitoras, caros leitores

Em primeiro lugar gostaria de me desculpar pela longa ausência e descontinuidade dos posts.

A justificativa é razoável: estive em viagem ao exterior, por cerca de 25 dias, trabalhando durante longas jornadas com tempo bastante restrito para acessar a rede. Optei por postar em outro espaço um pouco do diário de viagem para informar o público sobre a nossa produção.

Ao chegar, o cotidiano me engoliu: mal tenho tempo para dedicar à minha filha devido às atividades divididas entre a vida acadêmica, o trabalho no Nova África, a vida doméstica e todas as demais tarefas que desenvolvo. Espero que compreendam. Tentarei ser mais disciplinada na produção de textos para o Blog da Mulher.

Hoje é Primeiro de maio. Dia significativo para todos os trabalhadores e para as mulheres trabalhadoras em especial, porque a maioria de nós ainda acumula duplas, triplas jornadas — trabalhar fora, educar os filhos, administrar a casa — e temos ainda salários mais baixos, mesmo  possuindo as mesmas qualificações e desenvolvendo as mesmas funções que homens.

Uma rápida olhada na bibliografia especializada nos informa que entre 1970 e 1990 a população economicamente ativa (PEA) feminina cresceu 260% contra apenas 73% da masculina (Araújo e Ribeiro, 2002), mas dados das PNADs (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 1981 a 1989, referentes à área urbana, de acordo com Barros, Ramos e Santos (1995) estimaram que, nesse período, o diferencial salarial não controlado entre homens e mulheres era de mais de 50%, desfavorável às mulheres para todas as regiões consideradas. Em 2005, os mesmos dados da PNAD informavam que ainda havia uma discrepância do diferencial de salário de aproximadamente 20% em favor dos homens.

Com a luta das mulheres essas diferenças salariais desfavoráveis às mulheres vem caindo, mas ainda é preciso políticas para intervir na situação de clara desigualdade construída historicamente. Entretanto, no Brasil somos sub-representadas na política, como bem informou o artigo de Fátima de Oliveira: “E as mulheres?” que pode ser lido aqui.

Neste ano eleitoral temos duas pré-candidatas à presidência do Brasil: Dilma Rousseff e Marina Silva. Isso é um fator deveras positivo. Ambas candidatas têm uma trajetória de luta ligada à esquerda e as mulheres politizadas de esquerda tiveram de enfrentar, na construção de seus próprios partidos, uma luta interna contra o machismo e o sexismo. Tiveram de educar os companheiros de partido sobre questões básicas sobre o tema.

Não pretendo defender uma visão essencialista que afirma que só por ser mulher, candidatas do sexo feminino defenderão políticas que contribuam para diminuir desigualdades entre homens e mulheres, preconceitos e a discriminação que sofremos. Não é tão simples assim, mas é inegável que a experiência vivida pelas mulheres quando ousam romper a barreira imposta a elas e entram na vida pública (campo historicamente reservado aos homens) pode sensibilizá-las para questões que nos atingem. Cynthia Semíramis escreveu um texto interessante sobre isso aqui.

Acompanhando um pouquinho o início da campanha eleitoral via grande mídia e redes sociais, o que fica visível é que Marina Silva e Dilma Rousseff, como candidatas, terão um trabalho maior que seus adversários do sexo masculino. Elas, além de discutir projetos políticos para a Nação com seus adversários, vão ter de enfrentar a desconstrução dos estereótipos cotidianamente forjados para atingi-las como mulheres. Tudo indica que Dilma Roussef  nesta questão terá um trabalho ainda maior, na medida em que as pesquisas a apontam com cerca de 30% da preferência do eleitorado, e Marina em torno de 9%.

Ao analisar a campanha, aliás pré-campanha, na medida em que oficialmente ela ainda não começou, fiz um exercício que não tem nenhum valor científico, mas que pode me ajudar a exemplificar a percepção que tive. Em pouquíssimos minutos com duas janelas abertas no TweetDeck (um programa para gerenciar a conta da rede social do twitter) eu li microposts (é assim que chamamos as mensagens postadas no twitter) que recorrem ao sexismo para fazer campanha eleitoral difamatória.

A condição do gênero feminino, percepções sobre critérios de beleza ou feiúra, sobre  sensualidade, ou supostos padrões de comportamento adequados às mulheres/damas foram recursos para diferentes twitteiros desqualificarem as candidatas. Selecionei alguns exemplos.

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