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ELES GOSTAM DE BATER – A Prostituta que há no Homem

                                                                                                  por Rubia Abs da Cruz[1]
“Elas gostam de apanhar” – esse foi o título de um artigo publicado na Folha de São Paulo, por Luiz Felipe Ponde, com muitas referências a Nelson Rodrigues e que se fundem no texto. E exatamente por isso, resolvi manifestar contrariedades, à leviandade de um texto, que em tempos de “Gabriela”, se torna ainda mais temerário.
 
Contrária ao que escreveu Pondé, penso que o mundo é um lugar bom! Mas temos pessoas não tão boas no mundo. Talvez eu não seja “adulta” o suficiente, o que nesse caso, acho até bom. Desculpem, mas creio que serei irônica vez que outra.
 
Aproveito para saudar a democracia e o processo civilizatório! Assim podemos debater o que pensamos sem violência física, ao menos. Possibilidade recente, advinda de um novo contexto social, já que nós mulheres não tínhamos direto a dizer ou escrever o que pensávamos, e tampouco à educação e profissionalização. Assim, saúdo também ao feminismo!
 
 No que se baseia a separação entre mulher e prostituta?
 
Deveríamos ter realizado mais marchas das vadias para nos fazermos entender. Queimarmos as calcinhas talvez… Essa dualidade ou cisão foi criada e absorvida pela humanidade. Seria bom contar com mais pessoas que chegaram até Simone de Beauvoir. Não somente lendo, mas compreendendo sua filosofia enquanto “especialista na alma humana” (Ponde). Mas somente ler não basta. Já tentava dizer Nietzsche, quando não era compreendido por grande parte da humanidade! Ainda bem que a alma humana tem muitos especialistas para além de Nelson Rodrigues.
 
Aproveito algo que circulou na mídia para exemplificar, e pergunto: – Sandy tem um lado devassa ou tem uma devassa dentro dela?
 
A mulher não encena, a mulher sente! Embora todos e todas nós possamos encenar em vários contextos do dia-a-dia e da noite também. Mas sinto muito, por quem somente vivenciou encenações e se relacionou com pessoas que se vendem!  Na vida e no sexo!
 
E partindo de uma das máximas de Nelson Rodrigues trazido no texto, “Dinheiro compra até amor verdadeiro.” Busco refletir:
 
– O dinheiro pode comprar quase tudo!  O dinheiro compra homens!
Não compra somente mulheres.
 
Pois então, aí reside “ A prostituta que há no homem”. Alguns se vendem pela comida gostosa todo dia… Brincadeiras à parte, gostaria que fizéssemos um exercício de pensar que o “homem” da frase acima, fosse compreendido, como usual na nossa linguagem, como homens e mulheres. É assim que a linguagem também exclui o feminino. Homem quer dizer homem e mulher! Poderíamos dizer que: – O homem é interesseiro. Que o homem só pensa em dinheiro. O homem engravida. Nesse último cabe um comentário, porque o homem, nesse caso o macho, engravida sim. Quando não usa preservativo… e aí, a responsabilidade não é somente da mulher como se costuma dizer por aí.
 
Não buscarei a hipocrisia e nem viver no “mundo de Alice”, mas admito que não consegui “escapar dessa armadilha que é interior”, e devido a um “desejo incontrolável”, quase pecaminoso, segundo Sábato Magadi, descrito por Ponde, de me manifestar, pois poderia simplesmente ignorar mais um artigo dessa linhagem.
 
Então, já que caí na armadilha desse texto, sigo: “que ensinem mais Nelson Rodrigues e menos Foucault”, não seria o principal problema da abordagem, (embora discorde) não fosse a máxima rodriguiana que mais me preocupou: “a vida é sempre amor e morte”.
Dependendo da interpretação, pode estimular homens a matarem suas mulheres, por se sentirem legitimados socialmente. Quantas vezes escutamos dizer que ele matou porque amava muito ou devido ao ciúmes. Isso é alguma outra coisa, mas não amor. No nosso Estado 50 mulheres foram mortas nessas circunstâncias em 8 meses. Menos mídia as desgraças sociais talvez pudesse ajudar. Exatamente por isso, não se noticiam suicídios! Ou talvez menos programas como “Gabriela”, onde homens matam as mulheres e a polícia nem se preocupa em investigar. A Lei Maria da Penha surgiu devido a um caso semelhante. A vida como ela é! 
 
“A submissão ao macho desejado” colocado por Pondé, faz com que muitos homens submetam mulheres ao sexo, contra sua vontade, fazendo com que tenhamos atualmente uma média de 90 mulheres estupradas por mês somente no Rio Grande do Sul e de meninas, sobe para a média de 200 casos mensais. Esses dados não podem ser ignorados.
 
Devemos ser responsáveis por nossas ideias em uma sociedade de desigualdades intelectuais, com “mulheres normais” e com homens que gostam de bater e de submeter às mulheres ao seu prazer. Esse “homem” também pode ser interpretado como homem e mulher. Ou não?
 
Sei que responder a esse texto é perigoso, e que alguns homens e também mulheres, podem pensar sobre mim: – Que idiota moral!
Brincadeira. Poderão pensar quase que de forma condicionada, adjetivos piores. Não me importa. Na nossa sociedade mulheres que pensam, reagem e se posicionam também são consideradas prostitutas. Não precisamos nos vender nem fazer sexo para assim sermos nominadas. Basta pensar e transgredir!
 
O que é ser um idiota moral mesmo?
 
* artigo relacionado ao artigo de Pondé, intitulado “Elas Gostam de Apanhar”
[1] Advogada, Diretora Departamento de Justiça da Secretaria da Justiça e Direitos Humanos do Estado do Rio Grande do Sul, Especialista em Direitos Humanos das Mulheres e Sistema ONU, Professora Curso de Educação Ética e Direitos Humanos da UFRGs.
Fonte: MMM-RS

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Violência contra a mulher: uma realidade caxiense

por Raquel Duarte e Paula Grassi*

Hoje, 07 de agosto, comemoramos seis anos da vigência da Lei Maria da Penha, lei considerada um marco na luta pelo fim da violência contra a mulher no Brasil, ao tornar crime todo o ato violento seja ele físico, moral, psicológico e sexual contra as mulheres no âmbito das relações domésticas e familiares.Nesta data, queremos propor uma reflexão. Que tal pararmos por um instante e nos perguntarmos: Qual o índice de violência contra a mulher na nossa cidade? Quais medidas protetivas o poder público oferece? Como funciona o atendimento às vítimas de violência doméstica e familiar em Caxias do Sul?

Agressões e ameaças contra mulheres são freqüentes em Caxias do Sul: Nos cinco primeiros meses deste ano, 1.072 mulheres pediram proteção judicial contra agressores, segundo matéria do Jornal Pioneiro, em 19/05/2012. Em apenas um final de semana, três crimes contra mulheres por parte de seus maridos/namorados chocaram a cidade: No primeiro, uma mulher foi agredida e teve seu corpo queimado; no segundo, um homem matou sua mulher e seu o filho com um tiro e em seguida tentou se suicidar; e no terceiro crime, um rapaz matou sua namorada, uma jovem de 16 anos, grávida de oito meses e jogou seu corpo numa represa da cidade.

Fatos como esses chamam a atenção da população e revelam uma realidade brutal vivenciada por 1 a cada 5 mulheres em todo o Brasil, como aponta a Pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado, realizada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo. Fruto das relações desiguais de gênero, advindo da sociedade patriarcal, a violência doméstica tem como principais autores os próprios namorados, maridos, amigos e tantos outros próximos das vítimas.

Criada para frear as milhares de mortes e agressões diárias vivenciadas pelas mulheres, a Lei Maria da Penha prevê uma série de medidas protetivas. Todavia, somente elas não se mostram suficientes para impedir que essa triste realidade continue presente em nossas vidas.

Apesar da criação da Lei e das políticas nacionais da Secretaria de Política para as Mulheres do Governo Federal, é necessário que os municípios estejam conectados e implementem medidas de prevenção, proteção e conscientização.

Atualmente, Caxias do Sul conta com uma Rede de Proteção e com uma Delegacia Especializada para as Mulheres. Todavia, o atendimento se mostra insuficiente para alcançar toda a demanda. O atendimento funciona apenas com agendamento de horário, o que pode vir a desmotivar a denúncia pretendida. Ademais é inadmissível que uma cidade com quase 500 mil habitantes e com altos índices de violência, após seis anos de Lei Maria da Penha, ainda não tenha uma Vara Especializada, com equipe multidisciplinar, como prevê a Lei.

O combate à violência doméstica e sexual não se encerra com o marco jurídico da Lei Maria da Penha. Cabe ao Estado, na agenda de enfrentamento à violência contra a mulher, integrar e fomentar políticas públicas. Gerar autonomia econômica, garantir escolas de educação infantil são alguns dos passos fundamentais para que o Estado cumpra o seu papel na ampliação dos direitos das mulheres e no fim da divisão sexual do trabalho. Cabe à sociedade no geral assumir a manifestação pública de combate às desigualdades de gênero e de defesa dos direitos e autonomia das mulheres.

A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer!

*Raquel Duarte, militante da Marcha Mundial das Mulheres/RS. Paula Grassi, militante e estudante de História da Universidade de Caxias do Sul.

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Devassa: não tomamos e trollamos!!

Lambes Feministas - Cupula dos Povos

Lambes Feministas - Cupula dos Povos

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#NovaSchinIncentivaEstupro

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Cerveja é bebida masculina, certo?

Por Maria Beatriz (@imbiacentrismo)
Cinco homens brancos bebem cerveja num quiosque de praia. Um deles questiona: “E se nós fôssemos invisíveis?” Já no plano imaginário, uma lata de cerveja flutuante representa o homem invisível, que sacaneia o jogador de frescobol, passa a mão em uma das mulheres da praia, e, por fim, entra no vestiário feminino, aterrorizando as mulheres, que saem correndo semi-nuas.
 
É esta a história da propaganda “Homem Invisível”, da marca de cervejas Nova Schin, que é veiculada há meses na TV. Porém, só por esses dias o conteúdo da campanha publicitária começou a ser debatido nas redes sociais, já causando o devido alvoroço e trazendo à tona reflexões necessárias sobre a mulher na indústria publicitária – mais especificamente no mercado da cerveja.
 
 
Mulheres saem correndo assim que “Homem Invisível” invade o vestiário feminino
Num primeiro olhar, parece uma campanha inofensiva, apenas dotada de viés cômico. Num segundo olhar, já é possível sentir uma repulsa pelo o que, mascarado com o tal de “humor”, é retratado na propaganda: mais um dos manifestos de desrespeito e objetificação da mulher no mercado da cerveja. Sem contar com o ingrediente especial desta em questão: a apologia ao estupro.
 
Analisemos: o ambiente é dos homens (o gênero que, segundo a indústria, bebe cerveja), e então, os caras resolvem imaginar o que fariam se fossem invisíveis. Numa das hipóteses, entram num vestiário feminino, e as moças logo saem correndo, com rostos aterrorizados. Os homens, ao imaginarem a cena, caem na risada – afinal, nada mais normal do que invadir o espaço das mulheres e fazerem o que bem entendem com elas. Não importa o medo que elas sentiriam, ou a invasão da intimidade delas, só importa o prazer que sentirão ao usufruir da situação.
 
O comercial em questão corrobora a cultura de estupro vigente em nosso país. Esta cultura, que forma seres humanos que determinam aceitável estuprar uma mulher pela roupa que veste, passar a mão em uma mulher que dançava com sensualidade na pista de dança, ou, desamarrar os biquínis de mulheres por diversão. Pior do que aceitável, seres pensantes que acham tudo isso engraçado.
Os “brincalhões” acham tudo muito divertido e inofensivo. Só que não.
Não, não é engraçado. Não é engraçado, pois é por causa destas “piadinhas” que mulheres são abusadas sexualmente todos os dias. É por causa destas “brincadeirinhas” que mulheres cada vez mais são usadas como instrumento de prazer sexual do homem. Basta.
 
Muitos homens pensam: “nunca estuprei uma mulher”, pois este tipo de abuso é banalizado, principalmente, pela mídia. Porém, mal sabem muitos deles que, abuso não se restringe à penetração vaginal. Desde 2009, abuso sexual se refere à qualquer ato libidinoso praticado sem consentimento. Se você já passou a mão na bunda de uma mulher sem o consentimento da mesma, você já estuprou. Se você já praticou qualquer ato que te desse prazer, sem a autorização da outra pessoa, você já estuprou. 
 
O que a marca Nova Schin faz é prestar um desserviço à sociedade, e principalmente, às mulheres, ao colocá-las como uma piada para os homens se deliciarem. Chega. A cultura de estupro existe, os homens dispostos a praticar tais atos existem, e a mídia tem que parar de validar esta linha ascendente de desrespeito e desvalorização da mulher.
 
Porém, a mídia gira em torno do dinheiro. É verdade, desde que o mundo é mundo – a mídia não se importa com o que é certo ou o que não é: se importa com o que trará benefícios para si mesma. “Se o povo é machista, intolerante e ignorante quanto à condição das mulheres, vamos concordar e lucrar em cima deles!”, pensam.
 
Na propaganda da Skol, a mulher é a serviçal do homem, e quando cansa disso, está “rebelando-se inexplicavelmente”
 
 
A indústria da cerveja é um exemplo claro do desinteresse da mídia em mudar qualquer imagem errada que a sociedade tenha. O comercial da Nova Schin é o debate do momento, mas não é de hoje que propagandas de cerveja diminuem e ridicularizam as mulheres.
 
O que dizer da, até recente, campanha publicitária da Skol? Para promover seu novo cooler controlado por controle remoto, a propaganda conta a história de um casal de namorados. “No começo, tudo é lindo” – passa para a imagem da mulher levando cerveja para o marido. A mulher, segundo a Skol, está cumprindo seu papel num lindo início de relacionamento: sendo a serviçal do homem. 
 
“Mas aí, um dia, inexplicavelmente, elas se rebelam” passa para a imagem da mulher, com uma pilha de pizzas nos braços, dizendo para o namorado ir buscar a própria cerveja. O cara, por sua vez, está sentado jogando videogame com os amigos. E a mulher, mesmo “se rebelando”, continua sendo a serviçal do homem, apenas reclamando da sobrecarga de tarefas. Um minuto de silêncio para os engulhos ao final propaganda, quando, olhando para as estrelas, o homem abraça sua namorada, e, despistadamente, a solta e abraça o cooler. Burp.
 
Sem contar que, quando a mulher não é a serviçal ou o instrumento de prazer do homem, ela é a recompensa. Inúmeras são as campanhas publicitárias onde, o homem abre uma cerveja gelada, da marca que for, e se depara com sua recompensa: uma mulher “gostosa” dando em cima, querendo sentar à sua mesa, de biquíni, e o mais usual: os servindo. 
A Devassa não é a loura que bebe – é a cerveja que o homem compara à mulher.
 
Existe uma marca de cerveja que alguns dizem ser direcionada às mulheres: a Devassa. Porém, é um exemplo claro de outra visão machista da indústria da cerveja: só quem merece sentar numa mesa de bar e beber é uma mulher linda e gostosa. Nas propagandas da Devassa, a mulher pode até beber, mas tem que ser uma Paris Hilton ou uma Sandy. 
 
Por outro lado, a Devassa continua a linha de objetificação da mulher. A Devassa, bem loura, é a que vai subir no palco, e dançar conga la conga (exatamente como Sandy fez) enquanto o homem está sentado à mesa, assistindo ao show. A Devassa bem loura é a mulher gostosa. É a loura que o homem vai beber, ou seja, a mulher da qual ele vai usufruir.
 
Mulher: ou serviçal, ou recompensa. Consumidora? Nunca!
 
 Após tantos exemplos (e sempre chegam novos exemplos a cada campanha publicitária), a pergunta é quase uma afirmação: cerveja é bebida masculina, certo? Não, não tá certo. Tá muito errado. Mulheres representam 1/3 dos consumidores de bebida alcoólica. 
 
Mulheres trabalham e pagam sua própria cerveja, sentam na mesa do bar com as amigas e gostam de beber cerveja – não são as garçonetes gostosas que servem os homens, nem as serviçais dos namorados. Está mais do que na hora da indústria da cerveja parar de tratar os homens como os únicos consumidores de sua bebida, e as mulheres, como as empregadas e recompensas.
 
Diante do desserviço às mulheres por parte da indústria da cerveja, refletimos: qual seria a solução? Apelar para o CONAR, que, como na questão da Nova Schin, resolveu ignorar o caso? Boicotar as marcas de cerveja? Parar de tomar cerveja? Não sei. 
 
Mas fica a dica de que, se aparecesse uma marca de cerveja com peito o bastante para se direcionar às mulheres com respeito, como consumidoras e não serviçais, ia ser de longe o maior sucesso. Mas ao que me parece, publicitários não leem blogs feministas. Uma pena. 
 
O Ativismo de Sofá também falou sobre a cultura de estupro e o novo comercial da nova Schin
Sugerimos a leitura do Machismo chato de cada (todo) dia, no qual há uma série de post sobre o Machismo da Nova Schin sobre nós mulheres!!

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PÔNEIS MALDITOS por Lola

Há dois comerciais novos circulando na TV que eu, pra variar, só vi na internet, por indicação de leitor@s que gostam de me ver sofrer. Este é de um carro novo da Volkswagen. O filho, adolescente, pede ao pai que não o deixe na frente da escola. E o pai responde com uma saraivada de perguntas: “Você saber surfar? Voce sabe tocar guitarra? Você já pegou alguma garota?”. Diante das negativas do filho, o paizão conclui: “Então desculpa, mas se alguém tinha que ter vergonha de alguém aqui era eu, né?”. Tudo bem, entendo o conceito ― filhos adolescentes têm vergonha dos pais. É uma fase. É normal. São adolescentes, pô. É uma idade confusa. Eu lembro quando passei a ter vergonha de andar de mãos dadas com meu pai. Se dependesse dele, ele nunca teria largado minha mão. E isso deve doer nos pais. Eu me arrependo dessa minha atitude. Mas dava pra fazer um comercial levinho e divertido em cima desse rito de passagem, não? Precisa mesmo ser um pai tão antipático assim, tão bully? E também não fica claro por que o garoto tem vergonha. Não deve ser do pai, um modelo de masculinidade (ele nem sorri!). É do carro então? O Space Cross é uma bela de uma porcaria? (o nome pelo menos é, convenhamos). Ah, então o menino não tem motivo algum pra ter vergonha? Se não tem, por que o pai tem que ser tão grosso?
O machismo do comercial fica explícito na questão de “pegar mulher”. Termo nojentinho esse. Alguém pergunta pra uma menina se ela já pegou homem? Não, porque os nossos padrões sexuais insistem que isso cabe ao macho. Ele tem que ser o ativo, o predador, o que corre atrás, o que come. Já a mulher é a que dá, a que libera, porque de jeito maneira que ela pode estar interessada. Quando a gente incentiva a figura do “pegador”, estamos, ao mesmo tempo, incentivando o preconceito de que mulher não pode tomar a iniciativa (quem faz isso é vadia), e de que mulher não pode ser “pegada” demais (ou será uma vadia). Muita gente no mundo ainda vê o pai como fundamental pra ensinar o filho a ser um pegador, um grosseirão com desconhecidas na rua, um machão. Não há um gene pro machismo ― é um comportamento ensinado (e não só de pai pra filho). O comercial deixa claro que pai deve se envergonhar do filho que nunca pegou uma mulher. O próximo passo é levá-lo pra zona, pra que o garoto possa se livrar dessa terrível chaga social chamada virgindade.
O outro comercial na realidade é uma campanha de três da Hope com a Gisele. Não tenho muito contra a Gisele, até gosto dela em alguns pontos (vou escrever um postzinho a respeito), mas ela não prima exatamente pelo combate ao machimo nos comerciais que protagoniza, certo? Primeiro aquela campanha detestável da Sky, e agora esta. A mulher já tem uma fortuna pessoal de 150 milhões de dólares. Ela poderia dizer “Não, obrigada, não quero participar de propaganda que difama as mulheres”. Mas não. A campanha da Hope já vem com um slogan pra lá de duvidoso: “Você é brasileira, use seu charme”. “Usar charme” é seduzir o marido para que ele te deixe fazer o que você quer, ou para que ele não te puna pelas coisas que você fez de errado. “Usar charme” é desfilar de lingerie e fazer vozinha infantil. A campanha ainda tem um tom condescendente, “Hope ensina”, em voz masculina. Porque mulher é tão burra que até pra seduzir precisa ser instruída. Ai, ai. Qual é a marca de lingerie que a gente vai boicotar pela associação com o Bolsonaro? Era a DuLoren? Daqui a pouco teremos tão poucas marcas de lingerie pra usar que nem precisaremos mais queimar sutiã.
No primeiro, Gisele avisa, do jeito “certo” (fazendo pose de lingerie): “Meu amor, sabe quem vem morar com a gente? Mamãe! Não é o máximo?” Bom, pelo menos aqui ela comunica, em vez de implorar. Este é o menos ofensivo dos três comerciais, se bem que ainda cai naquele clichê de que sogra é a inimiga número um dos homens.
O segundo aborda um outro lugar-comum: de que mulher é descontrolada e gasta demais. Gisele anuncia: “Amor, estourei o limite do cartão de crédito. Do seu e do meu”. Gisele é uma mulher multimilionária ― mais do que o limite do cartão, ela teria como gastar os lucros que uma empresa de cartão de crédito tem. Mas, no comercial, ela ainda depende do cartão do marido, na pior alusão à “teúda e manteúda” (alguém lembra de Tieta?).
O terceiro é o mais deplorável. Gisele diz: “Amor, eu preciso te falar uma coisa: bati seu carro… De novo!” Em uma só frase os publicitários passam que mulher não sabe dirigir (vive batendo o carro ― deve ser por isso que paga uma apólice de seguro muito menor em todas as faixas etárias), e que é um serzinho tão dependente que não pode ter seu próprio carro. Note que ela bateu o carro do marido!
E não vou nem entrar no mérito de como Gisele tem um biotipo tão parecido ao da mulher brasileira. O que me lembra uma capa de revista que a Gisele fez que foi acusada de racista. O pessoal que não viu racismo algum em Gisele posar ao lado de um negro imitando um King Kong disse: “Mas Gisele não é branca! Ela é brasileira!” (prometo falar mais dessa capa). Sabe, por mais que brasileiro realmente não seja considerado branco nos EUA, mesmo sendo muito branco, é ridículo aplicar isso a um padrão nórdico como o da Gisele. Aliás, desde quando não ter cintura é sinônimo de padrão de beleza? Toda vez que eu leio sobre as curvas de Gisele eu me pergunto: “Curvas? Onde?”. Mas isso sou só eu implicando com a pobre Gi. Minha queixa não é com ela, é com as propagandas que aceita fazer (e, se esses são os comerciais que ela faz de bom grado, eu a-do-ra-ria saber quais são os que ela recusa).
E pensar que eu já fui redatora publicitária em outra reencarnação…

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Carta de apoio às mulheres que sofreram violência pelo Pastor Aldo Bertoni.

A violência contra a mulher é um fenômeno estarrecedor na vida de muitas mulheres e não está somente circunscrita a casa e ao trabalho. Vivemos em sociedade machista e patriarcal, na qual a violência contra a mulher está disseminada em todos os lugares: transforma a mulher em mercadoria, controla a vida das mulheres, afeta a vida profissional, a saúde e auto estima. Há mais de dois anos, o cientista Roger Abdemassih – médico de projeção internacional que trabalhava com reprodução assistida- foi acusado de assédio sexual. O caso teve um efeito surpreendente. Dezenas de mulheres, em seguida, fizeram suas denuncias, o que resultou na condenação do violador a 278 anos de prisão. Outras historias com ginecologistas, bispos, professores, padres -pessoas consideradas na sociedade como acima de qualquer suspeita- tem sido, com freqüência, denunciados de assédio e abuso sexual.

Neste momento, estamos vivendo outro caso emblemático. Desta vez, trata-se de um pastor: um homem de 85 anos chamado Aldo Bertone, líder da igreja apostólica, com sede em São Paulo e mais de 25 mil seguidores em todo o país. Para os e as fiéis, este homem é quase um Deus intocável. A religião criada por ele e sua Avó Dalva (nos anos 60) tem disciplina rígida e normas como: as mulheres devem vestir sempre roupas abaixo do joelho, é proibido ver TV, a vida das e dos fieis tem que ser dedicada exclusivamente a igreja.

Como Aldo Bertone é considerado por muitos uma divindade, as pessoas com problemas de qualquer ordem procuram sua ajuda, conselhos ou mesmo a cura para doenças. Assim, mulheres que, em momentos de dificuldade ou de doenças, o procuraram e foram abusadas sexualmente. Um caso foi o de uma mulher que buscava cura para um câncer de útero. Aldo Betone afirmou que teria como curá-la através de relações sexuais, pois seu sêmen tinha poder de cura.

Há mais de dois anos algumas mulheres tiveram a coragem de denunciar publicamente o abuso sofrido. Foi uma atitude de coragem destas mulheres pois o crime de abuso sexual é um crime silencioso, sem testemunhas, e o violador conta com seu poder frente às vítimas e com sua respeitabilidade frente aos demais. No caso do pastor Aldo, é ainda mais complexo pois ele é considerado “Santo Primaz, profeta dos ultimos tempos” para os e as fieis.

Por tudo isto, as mulheres que denunciaram a violencia foram transformadas em culpadas. Neste caso, onde em geral toda família participa desta mesma religião, estas mulheres vem enfrentando humilhações e hostilidade tanto dentro da familia como na comunidade religiosa. O agressor é acolhido, defendido e apoiado. As mulheres, vítimas de violencia, são desacreditadas.

As pessoas fazem muitas perguntas como: por que somente agora ela denuncia? Por que não gritou na hora? É fácil fazer essas perguntas, mas, para quem vive uma situação de assédio sexual, estupro ou abuso por uma pessoa com estas características não é simples. O importante é que, em algum momento, uma fez a denúncia, o que encorajou várias outras a fazer o mesmo. A pergunta que devemos fazer é: quantas mais ainda não tiveram coragem de denunciar e levarão esta violência como segredo e sofrimento pelo resto da vida, por medo de serem julgadas pela comunidade?

Ao invés de questionar as vítimas, temos que acolher estas mulheres, ouvi-las sem julgamento para que sintam e saibam que fizeram a coisa certa. Não importa o momento da denúncia. Se o caso foi há vinte anos ou recente, uma hora este agressor tem que pagar pelo crime para que outros sejam constrangidos de continuar assediando sexualmente as mulheres. A violência continua pois os homens acreditam que não serão punidos.

O Ministério Publico já pediu a prisão preventiva do pastor Aldo. Nós, do movimento de mulheres , queremos que a justiça seja feita: o agressor na prisão e as mulheres vítimas apoiadas inclusive pscologicamente, para enfrentar as humilhações impostas por familiares e por parte da comunidade que acredita na santidade deste homem. Ressaltamos que este homem é um violador, estuprador e agressor, que se utiliza da boa fé de uma comunidade para manter o luxo e a riqueza e transformar as mulheres em objeto para seu uso.

Toda a nossa solidariedade as mulheres vitimas desta violência!
Punição ao assediador!

Marcha Mundial das Mulheres

Casa Viviane dos santos

Casa Cidinha Kopcak

SOF – Sempreviva Organização Feminista

As organizações e movimentos que queiram assinar ou enviar suas cartas de apoio, envie para marchamulheres@sof.org.br
Para as que não viram a reportagem que denuncia a série de abusos, segue link (nos negamos a reproduzir aqui)

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