Autonomia Econômica das Mulheres Rurais é Brasil Rural Contemporâneo

Nilda Duarte, agricultora ecológica de Capão do Leão-RS.

por Cintia Barenho*

Hoje quando começa a oitava edição da Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária – Brasil Rural Contemporâneo – é a minha vez de trazer a tona o a importância das mulheres rurais para o desenvolvimento brasileiro.

Desde 2004 o Brasil Rural Contemporâneo materializa, em algumas capitais, toda a nossa diversidade, produtividade e pluralidade desenvolvida pela agricultura familiar, agroecologia, assentamentos, povos tradicionais e indígenas. Ou seja, evidencia um Brasil que dá certo preservando e conservando nossa biodiversidade; que dá certo sem monoculturas ou agrotóxicos; que dá certo preservando e valorizando a diversidade cultural!!

No Brasil que dá certo, as mulheres trabalhadoras rurais são elementos-chave para o desenvolvimento rural sustentável, porém, seguem invisíveis.

Nesse sentido, nada melhor que resgatar o projeto de “Formação e Articulação com Mulheres Rurais nos Territórios da Cidadania – ações para ampliar o acesso às políticas públicas do MDA”, convênio da Sempreviva Organização Feminista e o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Ou seja, o Governo Federal reorienta suas políticas públicas, através da Diretoria de Políticas para Mulheres Rurais, mas suas beneficiárias pouco acesso tem às políticas. Nosso trabalho então era ampliar o conhecimento sobre tais políticas, contribuindo e fortalecendo a auto-organização das mulheres rurais.

Se por um lado, ao percorrer o Território da Cidadania da Zona Sul do Rio Grande do Sul, eram concretas as falsas promessas de um desenvolvimento a qualquer custo propagandeado, especialmente, pelos desertos verdes (monoculturas eucaliptos); por outro lado, era evidente a luta e a resistência produtiva desenvolvida nos assentamentos de reforma agrária, pelas famílias agricultoras de base ecológica, pelos pescadores e pescadoras artesanais. Num Pampa pobre, dissimulado por tantos, era cunhada a diversidade necessária para o desenvolvimento rural sustentável.

Conheci mulheres protagonistas da mudança de paradigma, através da agricultura ecológica, que modificaram a vida das suas famílias e comunidades, cuja ação também transforma a vida de muitas crianças que tem acesso à alimentação saudável na merenda escolar.

Vi mulheres reciclando/reutilizando redes de pesca e transformando couro de peixe em lindas bolsas, carteiras, chapéus, bijuterias e vendendo seu trabalho para o Brasil inteiro, até para lojas de grife como elas me diziam.

Lutei com as pescadoras artesanais que exigiam manter um direito conquistado, o do seguro-defeso (desemprego), já que houve uma interpretação de que as pescadoras não trabalhavam na pesca, apenas “ajudavam” aos homens descascando todo o camarão, filetando, tirando carne de siri.

Assisti a “Associação de Mulheres Camponesas: terra, luta e libertação” se constituir pelas mulheres assentadas da reforma agrária, para participar de feiras, acessar as políticas públicas e romper com ciclos de violência vivida por algumas.

Tantas possibilidades sendo desenvolvidas, a autonomia sendo construída com acesso mínimo às políticas públicas. Imagine se não fosse pela falta de documentos civis, desinformação e machismo, já superássemos a desigualdade de acesso das mulheres? Imagine se o acesso fosse integral?

A orientação feminista das políticas públicas para as mulheres rurais é uma realidade. Ainda estão longe de serem suficientes e estão limitadas. Precisamos romper com a visão machista do direito à terra e da produção rural e disseminar, na sociedade, que as mulheres são sujeitos políticos e sociais com iguais direitos e condições que os homens. São elementos centrais para o desenvolvimento da sociedade que queremos viver.

Mas sem dúvida que já se constrói um Brasil que dá certo, um Brasil contemporâneo que é rural e que se orienta por políticas públicas de igualdade de gênero, para a Autonomia Econômica das Mulheres Rurais.

Obs: qualquer dia desse retrato o lado não tão positivo das minhas vivências, o lado maior da invisibilidade das mulheres rurais.

*Cíntia Barenho é feminista e ecologista (talvez ecofeminista) das ruas e das redes,  e claro, da Marcha Mundial das Mulheres-RS.

Fonte: http://marchamulheres.wordpress.com/2012/11/21/autonomia-economica-das-mulheres-rurais-e-brasil-rural-contemporaneo/

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