Machismo virou esporte olímpico?

Veterana, medalhista de ouro,
em sua QUARTA olimpíada
por Gizelli Sousa @gizasousa
Mal começaram as Olimpíadas de Londres e o machismo que envolve a participação de mulheres em jogos já começa a dar sinais de presença. Algumas notícias nos chamaram atenção. Uma dessas notícias diz respeito à atleta Liesel Jones, nadadora australiana, que acusaram de estar fora de forma. A cobrança pelo corpo saradíssimo da nadadora revela machismo da imprensa e da sociedade, pois se o treinador dela afirma que ela cumpre uma rotina exaustiva de treinos, se estamos falando em uma profissional classificada para o maior evento de esporte do mundo (as fucking Olimpíadas!), quem somos nós para desmerecê-la por uma barriguinha? Será que as pessoas estão procurando barriguinhas nos atletas do sexo masculino? duvido muito.
 
Outra notícia é sobre a pressão do uso de biquínis nos jogos de vôlei de praia para chamar os espectadores. SIM, é isso mesmo que você leu. A FIBV, Federação Internacional de Vôlei, retirou a exigência do uso de biquínis no vôlei de praia. Mas teve até jornal fazendo campanha contra. Nem se preocuparam em dar uma desculpa para objetificar as mulheres. 
 
Essa objetificação passa pela desvalorização do esporte feminino. Não foram poucas as vezes em que ouvi, por exemplo, que o vôlei masculino é melhor que o feminino. Ou que o futebol masculino é superior ao feminino e etc. Então se o esporte feminino não tem tantos atrativos quanto o masculino, o que o torna viável, inclusive financeiramente? O corpo da atleta. Ao menos é isso que parece pensar uma parte da mídia esportiva, quando o esporte e a superação deveriam ser as estrelas dos Jogos.
 
E não são apenas as mulheres do vôlei de praia que sofrem com a objetificação de seus corpos, não. Em quase todos os esportes os uniformes femininos são menores e mais justos  que os uniformes masculinos (excetuando a natação). Aqui você pode ver o tom da matéria sobre Hóquei na grama, por exemplo.
 
Exemplificando melhor a desqualificação do esporte feminino, o jornalista Flávio Gomes da ESPN achou-se no direito de expressar a seguinte opinião em seu twitter:
 
É isso aí galera. E quando foi questionado por um amigo e leitor do Ativismo de Sofá, sua resposta foi essa:
 
Aparentemente, para gostar de futebol feminino é preciso ser mulher. E mais, ser mulher deve ser uma grande ofensa, né? A nossa colaboradora Thaís Campolina também se manifestou. A resposta do sujeito para todas as mulheres que se revoltaram com tamanho desrespeito?
 
 
Se você não concorda com ele e é homem, então você é “mulherzinha”, se é mulher, é “feia”. Cadê meu bingo das discussões com machistas?
 
Eu ainda não consigo acreditar que um jornalista possa demonstrar tamanho desrespeito por mulheres que estão cortando um dobrado para se manter num esporte que não dá espaço para mulheres (ao menos no Brasil), que é símbolo de masculinidade. Será que ele não vê o mérito das conquistas e do esforço diário dessas mulheres incríveis que apesar de terem ouvido a vida inteira que “futebol não é coisa de mulher”, resolveram que amam esse esporte e que desejam quebrar esse paradigma machista? Como alguém pode não enxergar o grande mérito disso? Como alguém que vive de esporte consegue emitir opiniões como essa?
 
Infelizmente, essa é a mídia que cobre eventos esportivos. Aí alguém virá me dizer “mas nem todo mundo é assim, tem muita gente séria que não tem esse tipo de atitude…” . De fato. O problema é que tem muito mais gente machista no mundo, no jornalismo e em qualquer profissão. O que faz por exemplo o globo esporte, que é o programa esportivo mais popular do Brasil, criar uma eleição chamada “spice girls”, onde diariamente são postadas fotos das atletas mais “bonitas” (dentro do padrão de beleza)? Machismo. Eleger musas é só mais uma forma de dizer para as mulheres que essa é a sua função é decorativa. É como dizer: “fica quietinha aí, flw? Você não é atleta, você só serve para o deleite masculino.” Não acredita em mim? Preciso lembrar também daquela matéria para o globo esporte, há algum tempo atrás em que o repórter ASSEDIOU uma bandeirinha? Você não viu? Então assista nesse link, se conseguir.
 
Natalia Partyka, atleta polonesa de 
tênis de mesa que competiu nas Olimpíadas 
de Londres e competirá também nas  PáraOlimpíadas
Preciso desenhar o absurdo e o desrespeito que esse tipo de jornalismo é? É muito exigir um pouco de respeito pelas atletas que dedicam suas vidas ao ESPORTE? Cadê as notícias sobre os feitos dessas atletas, suas biografias, suas histórias de superação? Por que não podemos conhecê-las por aquilo que elas conquistaram?
 
Eu termino esse texto com uma imagem que ficou para sempre gravada na minha memória. O ouro olímpico da seleção feminina de vôlei em 2008. Seleção que chegou desacreditada, axincalhada e com fama de amarelar em grandes competições (obviamente uma fama criada e divulgada pela mídia que adora desqualificar o esporte feminino). O pedido de silêncio da Seleção, o cala-boca aos críticos está lá, registrado para sempre.
Update: A Natália Mendonça, colaboradora do Ativismo de Sofá, acaba de me informar que essa é a primeira vez na história das Olimpíadas que todas as delegações, inclusive as islâmicas, contam com mulheres. Está aí uma ótima notícia pouco abordada pela imprensa sedenta por musas.

7 Comentários

Arquivado em feminismo, mulher, ofensiva contra o machismo

7 Respostas para “Machismo virou esporte olímpico?

  1. Oi, tudo bem, eu sou a autora desse texto. Será que você se incomodaria de colocar o meu nome e o meu twitter embaixo do título?
    Gizelli Sousa @gizasousa

  2. Julia

    Essa matéria do globo esporte sobre a bandeirinha é nogenta! Que coisa mais absurda. To chocada.

  3. yume

    Tenho notado esta erotização nos uniformes das mulheres,inclusive nas academias aqui perto de casa,mas uma coiosa me pergunto: elas também não são culpadas? É por estas razões que sempre me manifestei contra a Marcha das Vadias,porque roupa significa muito para nós sim!Somos objetificadas a todo momento e encorajadas a nos auto-objetificar,nada vai pra frente se não fizermos uma auto-crítica e pararmos de colaborar com este sistema.

    • Juli

      Acho que o objetivo da marcha é mostrar que estamos no controle dos nossos corpos. Usar os nossos corpos pra protestar é legítimo. Nós estamos no controle dele quando fazemos isso. Os seios à mostra na marcha querem passar a mensagem de “Ei são só peitos”. Há um exagero na erotização dos peitos, eles não servem só para o olhar do outro, aliás, essa não é a principal função deles. Por isso que quando mães decidem amamentar em público podem causar constragimentos. Seios na banca de revista ok, mas pra amamentar uma criança, não. Vc percebe a diferença de tratamento? O corpo da mulher é tão objetificado que quando nós decidimos tomar o controle dele causa estranheza, revolta. Sabe aqueles comentários dirigidos às mulheres da marcha e as da Femem “por mim elas prostestam assim todo dia, acho ótimo”. Esse tipo de discurso reforça esse pesamento “Os seus seios, o seu corpo SÓ serve para o meu olhar”. Não serve, não, amigo. É essa a mensagem que essas mulheres querem passar.

      • Yume

        Um artigo interessante sobre esta tal marcha(escrito por feministas,não é trollagem imbecil):

        http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2012/05/508040.shtml

        E as mulheres atletas bem que poderiam ter batido o pé,rejeitando o bikine,não é mesmo? ou será que usar trajes sumários para deleite masculino é “liberdade de corpo? por isso acho bem forte este trecho lá da texto elas:

        “A burca imposta pelo Talibã e a indústria pornográfica do EUA conservam o mesmo machismo, apenas com formas diferentes. Assim, se por um lado o machismo se expressa como castração à sexualidade feminina, por outro lado estimula a mercantilização de nossos corpos e para isto difunde uma falsa “liberdade” da mulher em se “vender livremente”. Ambos os aspectos reduzem a mulher ora como objeto casto de reprodução, ora como objeto de lucro e prazer alheios e são parte da mesma moral burguesa.”

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