A longa jornada da mulher no esporte

por Lara Félix

Escrever sobre a mulher no esporte era para ter sido a minha “profissão”, visto que seria meu tema de mestrado. Acabei me desviando não só do tema como do próprio mestrado. Não descarto a possibilidade de fazer, porém, acho que iria escrever mais voltado ao meio-ambiente. Não sei se é besteira minha mas eu sinto tanta raiva de ver certas coisas… queria ser como a Lola, que pega os fatos (e pessoas) mais revoltantes do mundo machista e ataca. Mas às vezes fico sem estômago para ler até o fim e prefiro me abster, tipo, ir meditar. Um escape, pode-se dizer. Tipo a propaganda da Prudence, aaaai achei melhor fechar do que ler até o fim. Mas li os artigos da Marcha Mundial de Mulheres e da Lola sobre a tal. Só um pequeno desabafo antes do texto.

Receita clássica: esporte de alto rendimento, imprensa golpista, grandes corporações, capitalismo. Sabe-se bem que o esporte de alto rendimento serve muito, infinitamente mais, aos patrocinadores (grandes corporações) do que aos atletas. Os mesmos são submetidos a treinamentos desumanos, doping, interesses financeiros e uma rotina de insalubridade. Esporte de alto rendimento não é saúde, ou quem sabe vai perguntar para algum atleta se ele passa algum dia da sua vida sem dores, ou pior, pergunta pra um grande atleta aposentado como ficou o corpo dele depois de uma vida de treinamentos muito além do seu limite.

Eu me desafio a dizer que a maior parte dos atletas de alto rendimento já tomou algum tipo de doping ao longo da carreira, seja forçado pelo patrocinador que queria resultados, seja por si, para apresentar melhores resultados e ganhar patrocínio. O doping, se controladas as substâncias nos períodos pré ou pós-competitivos por médicos especialistas em esporte e pagos pelos patrocinadores, não aparece em exame nenhum. Grande novidade.

Esporte de alto rendimento é excludente! E não venha me dizer que e aquele carinha lá da favela vivia drogado e prostituído e foi “salvo” quando começou a praticar esporte e saiu das ruas para ser atleta. Primeiro, se esse cara saiu mesmo de uma vida de risco para virar atleta, 200.000 outros continuam lá e foram EXCLUÍDOS por não serem habilidosos o bastante. Logo, somente UM chegou ao topo. Vai me dizer que isso é inclusão social? Inclusive nas paraolimpíadas, o cara precisa ter habilidade e vai ser escolhido entre os outros 500.000 que vão ficar de fora. Aí eu tenho que ouvir que a escola é o lugar de formar atletas, que o Brasil deveria investir na “base” para ter mais resultados no esporte. A escola é o lugar de inclusão, onde tod@s se encontram vind@s das mais variadas origens. Como que eu vou chegar lá e fazer uma seletiva com os alunos para ver quem corre mais ou quem salta mais e dizer pros outros: “po, fica pra próxima, volta pra casa meu querido…”. Alguns poderão dizer que isso é bom, pra ensinar a criança que o mundo lá fora é difícil e que o “importante é competir”. Na real eu nem acho tão importante assim competir, isso nada mais é do que um ensinamento capitalista, pra baixar a cabeça e calar a boca que essas são as regras do jogo. E não é “natural” também, as pessoas não nascem competitivas, são culturalmente ensinadas a servir a um padrão de pensamento, desde a gestação, nada de natural e muito menos de humano nisso. Mas esse é outro assunto.

E quer saber? Esporte de alto rendimento é um grande negócio. E de negócios o inferno está cheio. Nem no resultado eu não consigo acreditar muito. Sabe-se lá se não foi comprado ou vendido, como tudo pode ser no mundo de hoje.

Quanto à situação das mulheres…

“O esporte, assim como qualquer outra prática social, é um campo generificado de disputa. É um espaço constantemente atravessado por relações de poder. Poder que se expressa por meio de diferentes formas: nas desigualdades de acesso e permanência no esporte, na quantidade de campeonatos realizados, no maior ou menor espaço disponibilizado pelos diferentes artefatos midiáticos, nas premiações distintas, enfim, em uma série de situações nas quais se evidenciam distinções para homens e mulheres (Figueira e Goellner, 2009, p.105).”

Se a situação dos atletas não é tão boa, que dirá das atletas. Casos de abuso sexual (por treinadores, preparadores, patrocinadores…) são recorrentes, pra falar do mais escabroso. Aí falando da mídia e como a mulher é noticiada nas seções de esporte, vemos manchetes tipo: “musa do halterofilismo celebra medalha de ouro com biquíni sensual” ou “cardápio variado: veja as belas que roubaram a cena” ou “musa que teve foto vazada fica só em 30º; americana de 17 anos lidera” isso porque eu olhei rapidinho algumas notícias sobre a olimpíada.

Se eu for um pouco mais longe e voltar pro meu tema de mestrado, que relaciona a imagem da mulher na mídia especializada em surfe, a lista vai ser quilométrica. Pra começar, os sites voltados a esse esporte geralmente têm uma seção exclusiva de “gatas” ou “musas” em que vemos fotos de mulheres em poses sensuais vestindo pouquíssima roupa, geralmente com uma prancha por perto. Ás vezes aparece uma ou outra foto delas surfando, mas isso é secundário. O importante é ela ser gostosa, musa, fazer as unhas e cuidar dos cabelos (que são muito maltratados pela água salgada) e planejar ter uma família. Ah, e se já tiver filhos e o maridão, ela dedica suas vitórias e tudo mais a eles. Por que ela não é mulher se não tiver um maridão para o qual ela dedica sua vida e ela não é mulher se ela não tiver a vaidade, mesmo praticando um esporte “violento”. Veja bem, meu protesto não é contra o marido nem os filhos nem a vaidade, é contra a obrigatoriedade de se seguir esse ou qualquer padrão e transformar isso no principal assunto.

O corpo da mulher é facilmente sexualizado pela mídia e vira piada ou pornografia. E se você fala alguma coisa contra isso, não tem senso de humor. Já contatei inúmeros sites de surf com reclamações sobre a imagem sexualizada da mulher e que sentia falta de mais respeito às leitoras praticantes do esporte que gostariam de se ver nas páginas das revistas praticando o esporte, com seriedade, assim como acontece com os homens. Um exemplo foi quando vi uma foto de uma menina mergulhando sob uma onda, logo seu traseiro estava elevado e ela estava de biquíni. A manchete era algo de extremo mau-gosto que não me recordo no momento. Ao reclamar da imagem, que era deveras desrespeitosa, recebi o retorno de que a intenção era trazer um pouco de humor às publicações. HUMOR? Coloca um palhaço surfando com uma melancia na cabeça então.

Enfim, as Olimpíadas só são um evento que traz a catarse de uma longa jornada de publicações ofensivas e outros desrespeitos à mulher no âmbito do esporte.

Tema tenso esse aí…

Fonte: http://larajacoby.wordpress.com/2012/08/02/a-longa-jornada-da-mulher-no-esporte/

Leia também: Machismo no Esporte

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Arquivado em feminismo, mulher, ofensiva contra o machismo

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