Violência contra mulher é também não garantir sua inclusão nos espaços políticos

Há histórias que se nós não perpetuarmos ficam esquecidas, uma delas é o por que do Dia Internacional de Combate À Violência contra a Mulher – 25 de novembro.

Las Mariposas, como eram conhecidas as irmãs Mirabal – Patria, Minerva e Maria Teresa – foram brutalmente assassinadas pelo ditador Trujillo em 25 de novembro de 1960 na República Dominicana. Neste dia, as três irmãs regressavam de Puerto Plata, o­nde seus maridos se encontravam presos. Elas foram detidas na estrada e foram assassinadas por agentes do governo militar. A ditadura tirânica simulou um acidente. Minerva e Maria Teresa foram presas por diversas vezes no período de 1949 a 1960. Minerva usava o codinome “Mariposa” no exercício de sua militância política clandestina. Este horroroso assassinato produziu o rechaço geral da comunidade nacional e internacional em relação ao governo dominicano, e acelerou a queda do ditador Rafael Leônidas Trujillo. (RODRIGUES, Janaína. 25 de novembro: Dia Internacional de Combate à Violência contra as Mulheres)

Combater a violência contra a mulher é luta cotidiana das mulheres e de alguns homens e não se restringe apenas a violência física, psicológica, patrimonial e tantas outras, existe também a violência institucional e a violência política e este post falará sobre isso: Violência política. Abrindo também a série de posts para os 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra Mulher.

Baixa representatividade política nos espaços de decisão, sequestro das pautas feministas para que sirvam de barganha assegurando uma pretensa governabilidade ou façam parte de acordos políticos nas diversas esferas da sociedade não é um dado de agora, é reflexo direto de uma sociedade patriarcal, onde homens e mulheres possuem lugares distintos e tarefas distintas.

A identidade social da mulher, assim como a do homem, é construída através da atribuição de distintos papéis, que a sociedade espera ver cumpridos pelas diferentes categorias de sexo. A sociedade delimita, com bastante precisão, os campos em que pode operar a mulher, da mesma forma como escolhe os terrenos em que pode atuar o homem. (SAFFIOTI, Heleieth. O poder do macho)

jornada de lutas das mulheres do MST 2011. Imagem de Bia Barbosa no Flickr com alguns direitos reservadosjornada de lutas das mulheres do MST 2011. Imagem de Bia Barbosa no Flickr com alguns direitos reservados

Esta atribuição de papéis distintos também encontra eco na atividade política, não apenas na política institucional, mas também no fazer político diário. As mulheres são sub-representadas seja no parlamento, seja nas instâncias de organizações políticas em geral (sindicatos, partidos, entidades estudantis, movimentos…) e este fato ajuda a perpetuar uma forma machista de se fazer política como também perpetua o não encaminhamento e comprometimentos das organizações políticas e do próprio parlamento para com a pauta dos direitos das mulheres. Não se debruçar para dar mais um passo frente a não secundarização das pautas das mulheres é corroborar com a violência machista, pois mesmo que em uma instância ou espaço possa haver mulheres isso não significar que ali é um espaço feminista, porém uma instância ou espaço onde predominem homens é necessariamente um espaço machista.

Muitos confundem o machismo e esta forma de intolerância e imposição com defesa apaixonada de posicionamentos políticos, assim como muitas vezes a sociedade taxa de crime passional o feminicídio. Não há paixão em nenhuma destas duas coisas, ambas são violências machistas, e reconhecer que em nossas organizações políticas isso existe e precisa ser combatido da forma que for é fundamental.

Infelizmente nos confrontamos muitas vezes com uma espécie de corporativismo entre as organizações políticas onde se escamoteia o debate e o confronto concreto do machismo de nossos companheiros e também companheiras como se fossem questões oportunistas – ajudando assim até mesmo a reafirmar o machismo em nossas organizações – e não como se fossem parte intrínseca da política, pois o confronto ao machismo é também uma questão política e não é menor, instrumentos de sanção a camaradas machistas iguais aos que vi neste final de semana são fundamentais para educar e disputar pedagogicamente como se combate o machismo, ou é tranquilo um camarada que intimida uma companheira continuar a representar publicamente as posições de sua organização política ou participar das reuniões de direção? Na minha concepção não é plausível isso, quando não se coloca uma medida educativa contundente de nada adianta constrangimento, pois é preciso sim impor limites em nosso partido para o que é plausível na disputa política e o que não é. E para mim machismo não é plausível na disputa política. (FRANCA, Luka. O machismo nos espaços políticos da esquerda socialista brasileira)

A garantia de mais mulheres no parlamento ou nas direções políticas de organizações brasileiras não necessariamente quer dizer que estes espaços se tornarão feministas de uma noite para outra, é óbvio que sem sem uma formação política feminista para homens e mulheres e uma brutal mudança para real inserção das mulheres na vida política as ações afirmativas acabam sendo apenas um bolo sem recheio, é necessário que estas políticas de ação afirmativa tenham sustentação e não apenas venham contribuir apenas para um formalismo de gênero como temos visto acontecer já algum tempo por aí.

Assim, os discursos parlamentares não fazem emergir um conceito de cidadania inclusiva: as mulheres que daqui emergem são seres moralmente débeis devendo, por conseguinte, constituir-se como seres de moralidade tutelada.
É verdade que a situação das mulheres se alterou com a instauração do regime democrático, mas é igualmente verdade que as conquistas de Abril (Revolução dos Cravos, anticolonialista e antifascista, ocorrida em Portugal em 1974-RM) não encerraram a luta pela emancipação social, nomeadamente a das mulheres. Como diz Ana Cristina Santos (2004: 281), «a ideia de emancipação pressupõe, desde logo, a existência de relações desiguais de poder, uma vez que, se o poder não fosse exercido de uma forma excludente, não haveria necessidade de se lutar pela igualdade de oportunidades e direitos, pelo direito à diferença ou pela inclusão. Por outras palavras, a desigualdade e a exclusão criam as condições – de inferiorização e exploração – indispensáveis (embora não suficientes) para a emergência de uma vontade de emancipação». (PENICHE, Andrea. Dimensionar o aborto no campo dos direitos)

É com abertura de espaço junto à sociedade para o debate da inclusão política das mulheres que devemos colar debates mais gerais também que dialogam diretamente com esta bandeira, pois falam de radicalizar a democracia em nosso país e isso contribui com a maior inserção das mulheres na política.

Essa questão é algo importante de se frisar quando vamos debater mulher e poder, pois realmente garantir a participação de mulheres nos espaços de decisão política não é apenas assegurar formalmente o espaço dela nas direções, delegações afins, é também ter política cotidiana para que possa exercer cotidianamente o seu protagonismo político, ou é razoável dar lugar na política para as mulheres e não assegurar que para poder estar nos espaços de decisão é necessário que se tenham creches, no caso das mães, acesso para mulheres deficientes (rampas, intérpretes…). Além de assegurar estes espaços é preciso que haja sim uma troca de papéis organizada politicamente, pois mesmo quando há espaço de creche e até mesmo quem cuida da logística de alimentação nos espaços são as mulheres, corroborando com a divisão sexual do trabalho. (FRANCA, Luka. Reflexões sobre a divisão sexual do trabalho na militância cotidiana)

É importante localizar este debate de mulher e poder junto a violência machista, pois sem uma política casada entre as ações afirmativas e uma política de formação feminista mais contundente se avança muito pouco, pois não queremos ir para os espaços de decisão para secretariar os homens, mas sim dirigir e formular linha política, pois só realmente na tarefa de formulação e direção é que efetivamente conseguiremos disputar a não secundarização das nossas pautas. Garantir que na intervenção no planalto ou dos movimentos sociais esteja assegurada dentro das pautas gerais os direitos das mulheres, pois se é para avançar para uma sociedade realmente igualitária não identificar quem é a maioria da classe trabalhadora em nosso país e no mundo é um tiro no pé e se os movimentos sociais e até mesmo o congresso nacional e as casas legislativas querem representar a maioria da população brasileira então nestes espaços é necessário que tenham mais mulheres.

Vendar o olho para isso é construir política para os mesmos, pois os direitos específicos são também os direitos da maioria e precisam ser levados ao debate por esta maioria aos espaços públicos e políticos. É preciso amadurecer estes debate junto a sociedade, mas não sob a falsa dicotomia paridade vs cota, mas pelo debate de fundo real que é o eixo de mulher e poder, pois se isto bem se resolve a análise de qual a melhor tática para a inclusão das mulheres nos espaços diretivos da política também se resolve com mais facilidade. Resistir na falsa dicotomia é não fazer o debate completo e é fortalecer uma sociedade patriarcal.

FOnte: http://blogueirasfeministas.com/2011/11/violencia-inclusao-espacos-politicos/

1 comentário

Arquivado em feminismo, machismo mata, ofensiva contra o machismo

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