Todos dizem eu te amo

“Para as mulheres do mundo inteiro, que sofreram abusos,na crença de que o conhecimento trará compreensão; e a compreensão reconstrói vidas” [1]

Essa é a história de Ellie – Eleanor Ames, residente em Nova York, natural  de Norwalk, Connecticut, filha de Martha Lapone, dona de casa, e de  Jonathan Shattuck, advogado. Simultaneamente, essa é a história de todas as outras Ellies e Sarahs, Lorrie-Anns, Corishas e Rosas da América e,  na verdade do mundo inteiro.” [2]

É assim que Mary Susan Miller inicia seu livro “Feridas Invisíveis –  Abuso não-físico contra mulheres”, em que fala a respeito da violência  psicológica, social e econômica contra as mulheres. Como ela diz, essa é a história de todas as Ellies, Sarahs, Lorrie-Anns, Corishas, Rosas do mundo. É a história de todas as Marias, Carolinas, Anas. É a história das mulheres.Como já disse, nesse livro, a autora, que trabalhara como assistente de  tribunal, atendendo vítimas de violência (tanto física quanto  não-física) sexista, descreve inúmeros casos de violência,  caracterizando-os, explicando como acontecem, mostrando quem são os agressores etc. Iniciei a leitura desse livro para um outro texto,
deixando-o de lado por um tempo, mas depois de certos acontecimentos do começo do ano, sua leitura tornou-se imprescindível.

Bom, fui lendo. E eis que, conforme a leitura avançava, eu me via cada vez mais em várias das situações descritas no livro.

E aí que você pára e pensa: Espera aí, eu já fui vítima desse tipo de violência? Aquilo que muitas vezes parece existir somente nas estatísticas? Como que eu não sabia? Como eu não percebi?

Pois
é. É claro que eu não achava que o comportamento do meu então namorado era normal, muito menos aceitava tranquilamente. Me incomodava, me fazia
mal, e era um relacionamento repleto de brigas. Mas entre sentir-se mal e reconhecer que é, de fato, uma violência,e uma violência exercida pelo fato de você ser mulher, existe um abismoque precisa ser superado. No caso, o abismo foi um tempo de nada menos que 4 anos.

Diz a Lei Maria da Penha:

Art. 7o São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras:

(…)

II
– a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio quelhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; [3]

A lei está aí. Mas são necessárias, no mínimo, duas coisas: 1) seu cumprimento, pois não adianta nada haver um papel assinado, se o que está escrito não é posto em prática; 2) Informação. Como uma mulher pode identificar se ela, ou mesmo uma amiga, está sofrendo violência? Como mostrar que tudo o que seu (ex) parceiro está fazendo lhe degrada, visa “controlar suas ações, comportamentos crenças e decisões”?

O livro citado anteriormente têm um questionário, retirado de um panfleto, que pode ajudar ao menos no segundo ponto (notem que a maioria dos pontos tratam de violência não-física):

“O seu parceiro:

  1. Bate, esmurra, esbofeteia, empurra ou morde você?

  2. Ameaça feri-la ou a seus filhos?

  3. Ameaça ferir amigos ou membros da família?

  4. Tem súbitos acessos de raiva ou fúria?

  5. Comporta-se de maneira superprotetora?

  6. Fica com ciúmes sem motivo?

  7. Não a deixa visitar a sua família ou os seus amigos?

  8. Não a deixa ir aonde você quer, quando quer?

  9. Não a deixa trabalhar ou estudar?

  10. Destrói sua propriedade pessoal ou objetos de valor sentimental?

  11. Não a deixa ter acesso aos bens da família, como contas bancárias, cartões de crédito ou o carro?

  12. Controla todas as finanças e, obriga-a a prstar contas daquilo que você gasta?

  13. Obriga-a a fazer sexo contra sua vontade?

  14. Força-a a participar de atos sexuais que você não aprecia?

  15. Insulta-a ou chama-a por nomes pejorativos?

  16. Usa a intimidação ou a manipulação para controlá-la ou a seus filhos?

  17. Humilha-a diante dos filhos?

  18. Transforma incidantes insignificantes em grandes discussões?

  19. maltrata ou ameaça maltratar animais de estimação?

Se você respondeu sim a uma ou mais das perguntas acima… pode estar sendo vítima de abuso”. [4]
Quantas de nós não respondemos sim à maioria das perguntas? Dos 19 pontos,  posso afirmar que meu ex fazia pelo menos 10. Alguns de maneira mais
clara; outros, não.

Nunca houve alguma ameaça, esmurros ou coisa do tipo. O máximo foi aquele segurão no braço no meio de uma discussão. O que não torna a violência menor.
As brigas eram tão absurdas a ponto de eu realmente achar que nós dois  sairíamos na porrada (aliás, talvez um dos motivos pelo qual ele não tenha resolvido bater em mim seja exatamente esse: haveria réplica).

Todos esses comportamentos atuam conjuntamente. A divisão da lista é somente para fins didáticos. Os súbitos acessos de raiva normalmente vêm junto com com o comportamento superprotetor, ciúmes sem motivo (afirmar a existência de “ciúmes sem motivo” implica aceitar que existe “ciúme com motivo”. Para mim, ciúme é um sentimento de posse, não é natural, e não é benéfico, mesmo que em doses pequenas. Por “ciúme sem motivo” entendo aqui o ciúme absurdo, aquela coisa que não se resolve com uma conversa e que parece loucura), não deixar a mulher ir onde quer, não deixá-la trabalhar etc.

Mas, comecemos pelo começo: eram comuns os acessos de raiva, devido a ciúme. Acessos de raiva ocasionados, inclusive, pelo fato de eu não sentir ciúmes. Apesar de ser um namoro à distância, simplesmente não entrava na minha cabeça a possibilidade de traição ou algo do tipo, o que era visto por ele como falta de amor da minha parte. A todo momento havia  algo do tipo: você não está me dando atenção, você quer terminar comigo, você isso, você aquilo… é possível enumerar os casos, não em ordem cronológica:

Se não me engano, no meu aniversário de 16 anos, fomos eu, ele, um amigo  dele, e outros colegas da minha escola para uma pizzaria. Estávamos todos lá, mas eu simplesmente não conseguia conversar com meus amigos.
1) Não podia conversar com quem estava perto, pois o comportamento do  meu então namorado era tão ridículo (afinal, com tanta gente, minha atenção não estava voltada só para ele, que crime!) que conseguiu criar a provavelmente maior torta de climão que eu já presenciei em toda minha vida; 2) Não podia ir conversar com quem
estivesse longe, pois isso seria “não querer ficar com ele”. E ele realmente disse isso. Uma amiga minha, sentada na outra ponta da mesa, me chamou, e ele reclamou de eu ter ido até ela para conversar. Eu disse: “mas ela me chamou”, como maneira de convencê-lo de minha “inocência”, o que diminuiria a reação dele, afinal, eu teria quebrado as regras impostas por ele não por minha vontade, mas porque um agente exterior o teria feito. Não é ridículo? Não lembro se falei pra ele que pouco importava eu ter sido chamada ou não, que eu podia ir aonde eu quisesse, provavelmente sim; mas, independente disso, o resultado foi nós dois brigando a noite inteira.

Resumo:
esse foi um dos piores aniversários da minha vida. No meu aniversário do ano seguinte, agradeci aos vestibulares por impossibilitarem-no de vir a São Paulo (ele era um ano mais velho que eu): eu poderia comemorar meus 17 anos tranquilamente, sem a presença daquele idiota controlador. A vinda dele para o meu aniversário seria como a volta do marido para casa, depois do trabalho. No meu caso, o caos começava quando lembrava que teria que buscá-lo na rodoviária:

“Então,chega a noite para ambas [a mulher que trabalha e a dona-de-casa]: o escritório fecha, os amigos vão embora, o espaço aberto na casa é invadido. As mulheres contam que o abuso emocional começa antes mesmo de ele voltar para casa ou antes de ela retornar do trabalho; ele começa com a lembrança, começa com o pavor. Como na história de Cinderela, a magia do baile termina à medida que o homem abre a porta da frente ou a mulher vai para casa; para a escravidão do abuso, ela murcha, sabendo que não deixou para trás nenhum sapatinho de cristal” [5]

Apesar de se dar bem com a minha família, ele não gostava de momentos em que ficávamos todos juntos, pois eu deveria fazer o que ele queria, quando queria. Freqüentemente, íamos, meus pais, minha irmã e eu, à Lindóia, pois temos um trailer lá. E uma vez tive a brilhante idéia de levar a criatura.

Eis que minha família nos chama para ver um filme, mas ele queria ouvir comigo alguma estupidez (para ele, música) que havia levado. Eu fiquei com ele, e minha família chamando. Para ele, ver o filme com a minha família seria “deixá-lo de lado”, pois iríamos fazer o que eu queria, e não o que ele queria. Bom, larguei ele ouvindo o que ele queria, e fui fazer o que eu queria, que era passar uma noite tranquila assistindo a um filme com minha família. É óbvio que depois eu tive que pagar ouvindo choramingos, reclamações, e mimimis de tudo quanto é tipo.

Fazer trabalhos, estudar, ou ficar muito tempo sem falar com ele por qualquer outro motivo, também era inadmissível. Houve momentos em que eu estava llotada de trabalhos de escola para fazer (aquelas coisas de fim de ano: apresentação de trabalho, mostra de literatura, e é claro que eu e minhas amigas pegávamos tudo pra fazer), e ele ligava, chorando, implorando por atenção, dizendo que eu era muito má e que não estava dando atenção para ele: nada a ver com o fato de eu ter que construir
árvores com madeira e jornal para o cenário de um teatro, costurar fantasias e, para isso, ter que passar o fim de semana todo acordada. O ápice foi ele me ligar torrando o saco, chorando, e eu simplesmente começar a chorar e mandá-lo desligar, dizendo que eu estava ocupada e ele devia era me ajudar e PARAR de me interromper. É claro que escrevendo dessa maneira tudo parece muito simples, mas foram momentos  extremamente tensos.

Outro ponto interessante: ele tinha algum programa, criado por algum lunático, que possibilitava ver se a pessoa com quem você conversa abria alguma janela em cima da sua conversa de msn. Para ele, eu devia dar atenção 100% à conversa, não poderia ver nenhum outro site. Fazer isso seria uma prova de meu amor. Que lindo, não?

Algo a ser lembrado também é que, quando ele vinha para São Paulo, saíamos mais com os amigos dele do que com os meus. Na realidade, não lembro de sairmos nenhuma vez com os meus amigos.

Esses momentos citados incluem ciúmes, comportamento superprotetor, tentativa de isolamento. Não queria que eu encontrasse meus amigos, se irritava quando eu saía sem ele, etc.

“Um homem psicologicamente abusivo, como o líder da seita com os seus seguidores, isola a mu lher do resto do mundo para que ela não tenha nenhum apoio, a não ser o dele. Ele expulsa os seus amigos, que poderiamservir de medida da vida real sobre a sua própria condição fantasmagórica e só lhe permite ter contato com os seus amigos. Ele rompe ligações com a família dela, cuja preocupação poderia refletir a sua deterioração e aproxima-a da própria família.” [6]

Talvez o que tenha me feito escapar de situações piores que essa seja justamente o fato de o namoro ser à distância. Apesar de toda a pressão exercida por ele para que eu não visse outras pessoas, ela era menor do que seria se morássemos no mesmo lugar.

Momentosmais complicados se deram quando eu estava na casa dele: eu estava em uma cidade estranha, com uma família estranha (que, diga-se de passagem, eram um bando de conservadores, eu não esperava nenhum apoio de lá – mas, para minha surpresa, tive, em partes), tendo a criatura como único  apoio. As brigas eram gigantescas. Uma delas, a maior, foi ocasionada não sei porquê, mas no fim ele queria me forçar a sair com ele alguma festa da cidade, e eu disse que ia tomar banho e dormir. Nós dois, aos berros pela casa, e até a mãe dele entrou no meio, para me defender e mandar o filho calar a boca. Disse que eu podia fazer o que quisesse, e que se não quisesse sair com ele, eu não ia sair. É claro que ele respondeu xingando a mãe de tudo quanto é nome e, no fim, acabamos saindo.

Nas férias, ele tinha que ficar em sua cidade sem sair e estudar para o vestibular. Reclamava e ficava furioso pois eu estava aqui em São Paulo me divertindo. Não raro, brigava comigo por causa disso. Queria que eu ficasse em casa, sem sair, pois, afinal, deveria acompanhá-lo em sua grande encruzilhada do vestibular; que, tal qual Amélia, passasse fome ao seu lado, e que achasse bonito não ter o que comer.

Novamente, na casa dele, houve um daqueles momentos que ninguém em sua sã consciência deveria pensar ser normal: eu não quis transar com ele, e, adivinhem: segundo ele, era porque eu, na realidade, não o amava, ia terminar com ele e sair por aí para transar com outro. E ele chorava. No fim, eu que fui chamá-lo para conversar, pedir para “não ficar assim comigo”. Eu, que não havia feito nada de errado, fui me desculpar, e pedir para que não ficasse bravo comigo.

“Afinal,ele a convenceu: não era culpa dela se não conseguisse cozinhar do jeito que ele queria? E não era culpa dela se não conseguia conversar com ele de maneira inteligente? E culpa dela se o deixava constrangido por ter engordado? E culpa dela se não conseguia agradá-lo na cama?” [7]

Uma outra vez, eu comentei com ele que gostaria de começar a fazer exercícios (estava na pira de emagrecer, mas eu sentei, e passou), e ele começou a dizer que eu queria fazer aquilo somente para agradar outros homens, chamar a atenção. Eu era uma promíscua. Em outro momento, falei que não queria transar com ele sem tomar anticoncepcional. Ele brigou comigo, alegando que “quem não transa toda hora não precisa de pílula” (insinuando que eu queria me prevenir pra poder “sair dando por aí”), e que o anticoncepcional aumentava os seios (e claro, as mulheres os tomam só para ter peitos maiores – e como se não houvesse um período de adaptação para ver qual é o anticoncepcional que melhor serve para a pessoa justamente para não ocorrerem mudanças bruscas no corpo…). Sequer ouviu minhas explicações. Simplesmente
brigou e pronto.

Em uma das brigas que tivemos na casa dele, ele saiu do quarto e voltou com os braços sangrando. Havia ido se cortar, para depois fazer chantagem emocional. Chorava, e me mostrava os braços sangrando. Dizia que fazia isso para aliviar a dor que eu causava nele. Vendo aquilo, eu deveria ter dado a faca a ele e mandado terminar o trabalho, mas não. Fui pegar água e algodão para limpar os cortes. Chantagem emocional com auto-mutilação. Aqueles cortes não eram cortes fundos, serviam somente para impressionar, chamar atenção. Serviam para demonstrar como a culpa era minha, sempre minha.

“Mas uma atitude que pode parecer um consentimento para a situação de violência, na verdade, revela uma relação de dependência, onde há váriosmecanismos de coerção. A dependência os sentimentos de desvalorização e de culpa acabam fazendo com que a mulher acredite que não há saída. Numa relação afetiva, esses sentimentos se misturam com a esperança de que o homem vai mudar, ou mesmo com a idéia, bastante comum, de que ela é responsável por salvá-lo.” [8]

Lembro de contar isso a amigas, ainda durante o namoro. E nós começamos a rir,porque essa situação demonstrou que aquele cara era simplesmente patético. Mas, no momento em que ocorreu, foi uma situação horrível. E, apesar de patético, era uma violência, uma violência contra mim, e eu não reconhecia isso.

Em um outro momento, uma amiga minha postou, em minha página de recados do orkut, algo relacionado a sexo. Meu ex simplesmente foi brigar com ela,dizendo que ela não devia ficar postando sem-vergonhices para os outros, sendo que era tudo uma grande piada que havíamos feito em um dia qualquer. A garota nem sabia que ele era meu namorado. Imaginem a vergonha que foi quando disse a ela quem ele era.

Em outros momentos, ele já quis que eu deletasse coisas de meu fotolog (a moda, na época). Não pediu, pois ficou com medo de que eu brigasse com ele. Perguntei o que ele queria que eu fizesse com aquilo. Ele disse que gostaria que eu deletasse. Respondi que mesmo que ele não pedisse literalmente, ele não deveria se achar no direito de querer que eu deletasse algo simplesmente pela vontade dele, ciúmes ou qualquer outra coisa.

Outra situação foi a de me obrigar a parar de falar com um colega, simplesmente porque os dois não se gostavam. “Eu ou ele”, dizia. E o que eu fiz? Escolhi o primeiro, abusivo.

Houve um outro momento em que resolvi fazer um teste. Em 2004, bem antes de conhecê-lo, eu e minha família fomos para a Espanha, pois meu pai conseguira bolsa para fazer o pós-doutorado lá. Perguntei o que ele acharia se algo do tipo acontecesse naquele momento, com a gente junto, e se tivesse que ir embora. Ele disse que se eu fosse, isso significaria que eu não o amava, pois não teria feito o suficiente para conseguir ficar no Brasil. Ou seja, eu teria que, mesmo sem ser possível, abandonar minha família, deixar de conhecer um lugar que não conheceria em outra oportunidade e, é claro, eu teria que abrir mão das minhas opções, não ele.

O último ponto que relatarei aqui talvez seja o que, hoje em dia, me deixaria pior: a tentativa de me impedir de levar a cabo meus ideais políticos. Eu estava começando a me interessar de fato por política, e, na época, estava a todo vapor a campanha pelo voto nulo nas eleições presidenciais. Estávamos eu, ele e uns amigos (dele, é claro) andando pelo centro de São Paulo, e fomos abordados por militantes panfletando a respeito das eleições e do voto nulo, convidando para uma atividade sobre o assunto. Pegamos os panfletos e, quando o homem se retirou, meu ex e seus amigos começaram a fazer piadas estúpidas, do tipo: “o que eles vão fazer na atividade? Ensinar a votar nulo? Mostrar quais botões tem que apertar?”. Guardei meu panfleto.

Ao chegarmos em casa, comentei com ele que havia gostado do que havia no panfleto, que já pensava nisso há algum tempo. Ele quis que eu desse o panfleto para ele, que ele não concordava com aquilo. Eu falei que não, era meu e eu iria guardá-lo. Ele começou a chorar, e dizia “você vai fazer isso, mesmo sabendo que eu não gosto?”.

E fiz. Guardei o dito panfleto. Talvez ele ainda esteja aqui em casa, guardado em algum canto.

Durante um ano e meio, vivi um relacionamento abusivo. Como já disse, provavelmente o fato de ter sido um relacionamento à distância me ajudou, mantendo meu agressor longe de mim. Outro fator que provavelmente me ajudou foi minha educação. Apesar de ter sido levada pela vitimização, ele poderia ter me degradado muito mais se eu não tivesse uma boa auto-estima. Muitas pessoas pensam que “sempre foi assim e sempre será”. Apesar de eu não reconhecer a situação como uma situação de violência, sabia que quem estava errado era ele. Talvez, se não fosse isso, houvesse mais um silêncio submisso do que brigas. Mesmo vitimizada,
mesmo ficando muito mal, eu sabia que o problema era com ele, e não comigo.

Amor?

Muitas pessoas devem pensar: “mas, quem ama, cuida. Quem ama não agride. Esses homens devem odiar suas mulheres.”

O objetivo da maioria dos vitimizadores, segundo Mary Miller, não deseja afastar as esposas. Se o fizessem, estariam afastando o objeto de seu controle. Mesmo quando é pedido o divórcio, eles o negam, alegando “amá-la”.

“Embora tanto um vitimizador quanto um parceiro amoroso possam identificar os seus sentimentos com as palavras ‘Eu a amo’, ninguém pode ler o seu coração. O comportamento é evidente para a maioria das pessoas, mas é difícil acreditar que um homem ame a mulher que espanca, apesar das suas afirmações. A verdade está mais perto de: ‘Eu amo o que ela faz para mim’. E o que ela faz para ele é lhe dar o controle”. [9]

O propósito do homem abusivo não é o de sentir prazer com a dor causada por suas ações, mas a de controlar. Ele é um fim em si mesmo. “Embora um
homem possa explicar os seus atos dizendo: ‘Perdi o controle’, na verdade, o que ele fez foi ganhar controle.” [10]

A Naturalização da violência

Quando estava namorando a criatura, lembro de comentar sobre os ocorridos com uma amiga minha do colégio. Eu dizia que ele era muito ciumento, demais da conta. Ela respondia coisas como “ele é assim mesmo, é por causa da distância, é que ele sente muitas saudades. Dá uma trégua para ele”.

A única coisa que eu conseguia pensar era: dar uma trégua pra ele? Ele me torra o saco, me faz chorar toda hora, me faz passar mal, e sou EU que tenho que dar uma trégua?

Isso só mostra o quão naturalizada está essa violência. Ela também fica clara pelo silêncio dos outros. Muitas amigas minhas, após o término do namoro, vieram me dizer que não gostavam dele. Que, na verdade, odiavam-no. Pensei várias vezes, comigo mesma, que elas deveriam ter dito isso. Talvez eu tivesse me livrado da situação mais rapidamente.

Eu vejo o mesmo acontecer hoje com outras amigas. Elas sofrem abusos, mas ninguém comenta com elas. Ninguém reconhece a situação como abusiva. Todo mundo já conheceu um namorado chato de uma amiga, aquele que não a deixa sair com você, que não deixa ir na sua casa etc, mas dificilmente reconhecemos esses namorados como agressores. Não porque sejamos favoráveis à violência, mas sim por falta de informação, incapacidade dereconhecer essas situações.

Informação e apoio são essenciais

Este ano, vivi uma situação mais ou menos parecida. Acabei brigando com alguém que era muito caro para mim – mas somente amigo – justamente sobre um caso de violência contra a mulher. No fim, brigamos muito, e me vi sofrendo as mesmas coisas que sofri durante a relação: levar a culpa por coisas que não havia feito, o homem aproveitar-se do fato de eu estar em uma posição fragilizada etc. Desta vez, incluem-se criar situações fictícias de maneira a manipular a situação e fazer-me parecer culpada pelos problemas.

Mas, desta vez, havia dois fatores que me proporcionaram um reconhecimento rápido da situação abusiva: 1) Informação; 2) Havia quem me dissesse: “Júlia, é um absurdo isso que ele está fazendo com você”. Dessa maneira, eu consegui afirmar inclusive para o próprio agressor que ele estava sendo abusivo.

Dessa maneira, é importante que as mulheres saibam que elas não estão sozinhas. Quando sente-se agredida, dificilmente uma mulher erra. Ao primeiro sinal de abuso, procure ajuda, você pode estar se relacionando com um agressor. Eles não são bandidos  malévolos, psicopatas. São homens comuns, desses que se vê todos os dias
na rua. Qualquer homem pode vitimizar sua parceira. Procure apoio em amigos, procure na internet grupos que discutam violência sexista. Procure ajuda.

É imprescindível saber, também, que o abuso contra as mulheres cresce progressivamente. Muitas mulheres vítimas de abuso físico relatam terem sofrido abuso psicológico durante anos, mas nem sabiam o que era. E a situação não melhora, somente piora. Sim, ele quis dizer aquilo que disse, ele quis fazer o que fez, não é apenas uma fase. Ele não vai mudar.

Tão importante quanto pedir ajuda é dar ajuda. Passar informações para a frente já é um bom começo. Mas, caso você conheça uma mulher que está sendo vitimizada, converse com ela. É um assunto delicado, ninguém pode obrigar alguém a falar. Mas, pergunte, preste atenção no que ela fala sobre o rapaz, fale do assunto. Diga se ele for controlador etc. Se ela pedir ajuda, não ignore. Não diga que é normal, pois não é.

“Mais
de sete em cada dez casos registrados de violência contra a mulher acontecem dentro de casa, e os agressores são maridos, namorados, amantes ou excompanheiros, além de pais ou parentes. Aliás, o risco de a mulher ser agredida por esses é nove vezes maior do que na rua” [11]

Cinco anos. Cinco anos da Lei Maria da Penha, e ainda temos que explicar às pessoas que abuso não-físico não é “outra briga de amor”. Cinco anos da
Lei Maria da Penha. Aparentemente, há mais denúncias, mas pouco se faz para combater realmente a violência contra a mulher.

Fica o desafio para nós, feministas: vamos exigir o cumprimento da lei. Afinal, os lírios não nascem das leis.

Escrevoeste texto na esperança de, com informação, conseguir evitar que mais mulheres passem pelo que eu passei. Parafraseando a própria Mary Susan Miller: O horror que as mulheres sofrem é real. Esse texto trata dessa realidade. Eu o escrevi para que o mundo a reconheça.

É pela vida das mulheres.

Notas:
[1] MILLER, Susan, Miller. Feridas Invisíveis – Abuso não-físico contra mulheres. Summus Editorial, São Paulo. p.5
[2] Idem, p. 15
[3] Lei Maria da Penha. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm
[4] MILLER, Susan, Miller. Feridas Invisíveis – Abuso não-físico contra mulheres. Summus Editorial, São Paulo. p.21
[5] Idem. p.35
[6] Idem. p. 50
[7] Idem. p.34
[8] Mulheres em luta por uma vida sem violência – SOF. p. 17. Disponível em: http://www.sof.org.br/arquivos/pdf/Cartilha_violencia.pdf
[9] MILLER, Susan, Miller. Feridas Invisíveis – Abuso não-físico contra mulheres. Summus Editorial, São Paulo. p.43.
[10] Idem. p. 27
[11] Mulheres em luta por uma vida sem violência – SOF. p. 12. Disponível em: http://www.sof.org.br/arquivos/pdf/Cartilha_violencia.pdf

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