Lacunas e Inverdades

Claudia dos Santos*

Se o objetivo da edição de junho da Superinteressante era explicar o que está acontecendo com os sexos e quais são as nossas diferenças, deixou muito a desejar. Compreender que existem diferenças biológicas pode ser o começo, mas não podemos ignorar as questões sociais envolvidas.

Já afirmar que os homens estão perdendo terreno nas empresas é uma maldade. Ainda que, conforme a reportagem, as meninas tenham melhor desempenho na escola e na chegada à universidade a “desvantagem” dos meninos seja clara, não existe igualdade salarial em relação aos homens. As mulheres tiveram um aumento da sua presença no mercado de trabalho, mas nas tarefas reprodutivas (calçadistas, montadoras de componentes eletrônicos, bancos, tecelagens, etc.) que apresentam salários mais baixos e precariedade nas relações trabalhistas.

É sabido que as mulheres são minoria nos postos de trabalho de maior valorização profissional e financeira. E isso não se deve ao fato delas preferirem historicamente profissões que pagam mal nem ao fato das meninas não pedirem aumento, conforme levianamente é apontado na revista. Deve-se ao valor mensurado de forma diferenciada do seu trabalho em relação ao trabalho masculino. Deve-se a construção do estereótipo da mulher como trabalhadora “secundária” ou “incapaz”, forjado a partir de uma idéia de superioridade masculina e uma divisão sexual do trabalho desde os tempos remotos.

No imaginário social a presença da mulher no mundo do trabalho é marcada pela compreensão de transitoriedade, pois o mundo do trabalho pertence ao homem. A mulher pertence à esfera privada e é talhada para ter filhos e cuidar das atividades domésticas. No imaginário da sociedade a mulher entraria no mercado de trabalho por uma “falha” do homem no cumprimento do seu papel de provedor. Por tanto, tenderia a abandonar a atividade econômica assim que possível. Já que o seu lugar é na família, em casa, no universo doméstico. A renda que a mulher produziria pelo seu trabalho também seria, por tanto, complementar, secundária e insuficiente.

A idéia da transitoriedade da mulher devido a responsabilidade pelos cuidados com os filhos e o lar teria como consequência altos custos. Nesse ponto as diferenças biológicas começam a contar para a explicação das desigualdades entre os sexos. Pois sendo a mulher capaz de conceber e parir outros seres humanos, necessita de cuidados especiais durante a gestação.

Cuidados que pesam para as empresas no que tange à licença maternidade e aos cuidados infantis. Associa-se essa responsabilidade pela família com um comportamento de baixo comprometimento com a empresa, impossibilidade para fazer horas extras, trabalhos noturnos e viagens, justificando dessa forma a exclusão das mulheres de determinados postos e funções.

É, vida de espermatozóide não é fácil, mas de mulher é mais difícil ainda. Seria ótimo ver a balança equilibrada em breve. Para isso é preciso superar o estereótipo das mulheres como força de trabalho transitório, secundário e incapaz. Alterar as relações privadas por meio do compartilhamento das responsabilidades, para então construir novas relações de trabalho.
*Claudinha é Delegada Sindical – Caixa Econômica Federal-RS

Fonte:: http://mmm-rs.blogspot.com/

Leia também: http://terribili.blogspot.com/2011/03/culpa-e-das-mulheres.html

Deixe um comentário

Arquivado em feminismo, ofensiva contra o machismo

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s