‘O pecado do plástico’


por Flavia Alli

Eles criam novos conceitos, se apropriam de tabus, e até do próprio feminismo, distorcendo-o. Eles se apropriam das pautas da esquerda, e também caem na contradição ideológica. Mas, todas essas propriedades e apropriações tem apenas um mote: o capital. Ele gira conforme os cisnes negros vão surgindo, apontam para uma ‘(r)evolução’ (sim, eles utilizam desta palavra quando querem superestimar um produto, e vender absurdamente) da sociedade, e até fazem acreditar que ser contra as regras é legal. Mas, e quando nem a própria sociedade neoliberal for tão pós-moderna assim? Aí, o mercado volta atrás, faz de gato e sapato os consumidores. E, no fim, não tem nada a ver com a Barbie transgredir as regras por usar roupa de mecânico, nem por ‘trabalhar’ aonde somente o macho já chegou. Tem a ver com a moralidade da sociedade, como que ela ainda vê as relações pessoais e sexuais e, claro, a indústria cultural que pauta e despauta, e ganha sempre. Seja porque foi um fracasso, e mais adiante os colecionadores comprarão de qualquer forma. Seja porque voltam atrás, e anunciam um verdadeiro espetáculo cor-de-rosa. Eis, abaixo, o texto Barbie vai à Guerra, do Eduardo Galeano (livro Espelhos). Vale a reflexão:

Barbie vai à Guerra.

Eduardo Galeano

Existe mais de um bilhão de Barbies. Só os chineses superam essa população tão enorme. A mulher mais amada do mundo não poderia falhar. Na guerra do Bem contra o Mal, Barbie se alistou, bateu continência e foi para a guerra do Iraque. Chegou à frente de batalha vestindo fardas de terra, mar e ar, feitos sob medida, que o Pentágono examinou e aprovou. Ela está acostumada a mudar de profissão, de penteado e roupa. Também foi cantora, esportista, paleontóloga, dentista, astronauta, bailarina e sei lá mais o quê, e cada novo ofício implica um novo look e um novo vestuário completo, que todas as meninas do mundo estão obrigadas a usar. Em fevereiro de 2004, Barbie também quis mudar de par. Fazia quase meio século que estava ao lado de Ken, que não tem no corpo outra saliência além do nariz, quando foi seduzida por um surfista australiano que a convidou para cometer o pecado do plástico. A empresa Mattel anunciou, oficialmente, a separação. Foi uma catástrofe. As vendas desabaram, Barbie podia, e devia mudar de ocupação e de vestidos, mas não tinha o direito de dar mau exemplo. Então a empresa Mattel anunciou, oficialmente, a reconciliação.

fonte: http://chefatamorgana.blogspot.com/2011/02/o-pecado-do-plastico.html

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