Twister, a imagem de um pesadelo

No último domingão, estava sentada na frente da tv, com uma caneca de café, esperando acabar de acordar, com o controle da tv na mão, zapeando, topei com o filme “Twister” passando em algum canal.

E até hoje, quinze anos depois, a mera menção a esse filme me traz uma recordação péssima.
Eu tinha 19 anos, fazia cursinho, e era cinéfila, sonhava em fazer jornalismo para só trabalhar fazendo o que mais amava (ingenuidade…). Então, uma vez por semana, em geral, eu ia ao cinema, sozinha, na parte da tarde, que era mais vazia, antes de ir para a aula.

Já existia o Shopping Cidade, no centro de BH, mas nem sempre passava os filmes de que eu gostava, e além do mais, eu apreciava o clima de cinemão, tipo o Jacques, o Palladium, o Art Palacio, cinemas de rua. Me lembravam minha infância, assistir os filmes dos Trapalhões e depois lanchar na Torre Eiffel, ou na lanchonete da Lojas Americanas (ainda não existia rede de fast food no centro, só tinha o Bob’s, lá na praça da Liberdade).

E aí, escrevendo o texto, percebo que já estou justificando porque eu gostava de ir aos cinemas do centro, em vez de ir ao do shopping… como se fosse preciso me explicar pelo ocorrido comigo, como se fosse culpa minha…

Bem, cut to the point: estava eu, de calça jeans, camiseta, tênis, mochila nas costas , livro na mão.
Comprei meu ingresso, entrei no cinema, não lembro se no Jacques ou no Palladium, mas foi em um deles.
Entrei, a sala enorme, vazia, dia de semana, à tarde. Começam os traillers, chegam os retardatários. Apagam-se totalmente as luzes, e começa o filme. Eu, concentrada, nem prestei atenção quando, na sala semi-vazia, senta-se uma pessoa na mesma fileira que eu.

O filme, para quem não sabe, é um desses disaster movie,  que conta a história de caçadores de ciclones, no meio-oeste norte americano. É extremamente barulhento, agitado. Lá pela metade, ocorre uma pausa, depois que um dos twisters do título passa por uma cidade e morrem algumas pessoas.

Foi nesse momento, em que o som diminuiu, que eu ouvi os gemidos vindos do lado. A pessoa, que sentara na mesma fileira que eu, havia se aproximado de mim, e estava a duas cadeiras de distância.
Gemendo. Se masturbando. Com o pênis pra fora, sem nenhum pudor.

O que eu fiz?

Levantei, mudei de lugar.

Ele?

Foi atrás! Sentou-se na fileira de trás!

Eu me levantei, catei minhas coisas, e sai da sala de cinema, puta de raiva.  Cheguei na bilheteria, e falei com a moça do caixa. E ela? Nada, nem aí. Eu, chorando, saí de lá, com ódio! De quem? De mim, por ser tão burra!

Quando saí do cinema, já na rua, com as lágrimas escorrendo, um homem de meia idade se aproximou e perguntou porque eu chorava. Eu fiquei com vergonha de dizer. E ele continuou, dizendo que eu era muito gostosa, e que sabia um jeito de me consolar!

Saí correndo, e ele riu.

Quando estava no ponto de ônibus, olhava com receio para todo homem que se aproximava. Quando sentei, o coletivo vazio, coloquei a mochila no assento vago, temendo que algum homem se sentasse.

E repassei o ocorrido, com mais calma.

Fiquei imaginando outros desfechos para a cena do cinema, com o masturbador anônimo.
Imaginei que eu levantava, pegava a mochila, pesada de livros, e tacava com toda a força na cabeça do cara, para ele desmaiar com o pau pra fora, e ser preso por ato obsceno.

Imaginei que em vez de não fazer nada, a funcionária do cinema chamava a segurança, e eles iriam tirar o cara da sala, passar-lhe um sabão, e expulsá-lo para sempre de lá.

O pior foi quando eu contei em casa. Minha mãe disse: “tá vendo no que dá, uma moça ir ao cinema sozinha?”

Essa história é só uma entre várias. Acho que todas as mulheres já passaram por algo assim.

E diante do pior que pode acontecer, a gente releva esses “incidentes”, nem comenta. Enterra lá no fundo da alma, e segue em frente.

Mas até hoje, quando vejo ou leio sobre o filme,  me vem aquele gosto azedo na boca. Aquela vontade de vomitar toda a raiva em cima daquele sujeito, que não me lembro se era velho ou jovem, branco ou negro, careca ou cabeludo, gordo ou magro. Só me lembro que era homem. E que até hoje, me sobe uma ânsia quando estou sozinha e um homem desconhecido senta-se ao meu lado…

Atualmente, quando reflito sobre o fato, consigo perceber que não havia naquele sujeito a intenção de seduzir, ou impressionar. Ele não esperava que eu “caísse de boca”, como em um filme pornô, ou que participasse de qualquer forma. Ele só desejava a minha passividade, e pior é que ele sabia que o máximo que eu ou qualquer mulher faria seria sair. Fugir. Porque para ele, e tantos e tantos outros, em maior ou menot grau de perversão, não somos pessoas. Somos vítimas, as ovelhas. E somos também as culpadas, afinal, quem mandou a gente estar sozinha no cinema, no ônibus, no bar, em qualquer lugar?

Tantas outras já escreveram sobre isso, inclusive, o post de ontem da Lola, que falou sobre as grosserias que as mulheres escutamos, as vezes antes mesmo de termos formas de mulher, e a Georgia, que falou sobre a angústia de sair sozinha.

Só quis compartilhar, e dizer que se isso acontecer com você, não é sua culpa. E você não tem que se envergonhar. Temos é que nos unir e fazer a sociedade perceber que quem tem que ter vergonha é o exibicionista, não a vítima.
(eu tive que dizer isso prá mim mesma muitas e muitas vezes, e somente agora, depois de ler tantas e tantas blogueiras incríveis, reconheci essa verdade básica)

Fonte http://as-agruras-e-as-delicias.blogspot.com/2011/01/twister-imagem-de-um-pesadelo.html

2 Comentários

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2 Respostas para “Twister, a imagem de um pesadelo

  1. É apavorante se tornar alvo simplesmente por ser mulher. Eu já escutei absurdos e já tive meu corpo invadido pelo toque de um covarde às 7 da manhã quando ia para o trabalho (eu estava a pé, ele de bicicleta, e passou a mão na minha bunda). Isto é ridículo e me revolta. Parabéns pelo texto.

    • Infelizmente a violência que sofremos é diária e devemos denunciar sempre. Mostrar a todos e todas o quanto somos violentadas seja psicologicamente, sexualmente, domesticamente. Se quiseres contar mais tua história sinta-se a vontade
      Feminismo contra machismo

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