A culpa da morte de Eliza Samudio é de Eliza Samudio?

Ontem ao chegar do Sarau do Binho me deparei com a lembrança do Alex Haubrich do Jornalismo B sobre o aniversário do AI5, visto que ontem fez 42 anos que o presidente Costa e Silva assinava o Ato Institucional (Inconstitucional?) nº 5 redigido pelo então ministro da justiça Luís Antônio da Gama e Silva e feito para retalhar a decisão da Câmara dos Deputados daquela época pois não haviam concedido autorização para que o deputado Márcio Moreira Alves fosse processado por um discurso no qual questionava até quando os militares esconderiam em seu seio torturadores e pedia à sociedade que boicotasse manifestações, paradas e afins promovidas pelo Exército. Vamos combinar que Moreira Alves não devia ser daqueles políticos mais bem vistos pelo governo militar, né?

Por conta da provocação do Alex eu tinha pensado em escrever um post justamente sobre o fato de ontem tanto na twittosfera, blogosfera e no mundo real não terem lembrado do dia que marcou com navalha a carne do povo brasileiro e hoje é notícia o aniversário da Dilma, nada contra lembrarmos do aniversário da Dilma, justíssimo, mas até por conta da história dela é anormal não ter lido nenhuma linha, exceto a lembrança do Alex pelo twitter no apagar as luzes do dia 13 de dezembro, sobre a data.

Porém neste percurso de elaboração do post me deparei com algo que me tirou do caminho de discutir até que ponto realmente lembramo-nos das coisas que tiveram impacto profundo em nossas vidas, a questão que atravessou o meu caminho foi justamente a notícia recebida pela Agência Patrícia Galvão sobre a sentença do juiz da 1ª Vara Criminal de Jacarepaguá Marco Couto afirmando que o comportamento de Eliza Samudio era desajustado, completando com um amigável:

Neste ponto, não se define bem quem é vítima de quem. Se os jogadores de futebol, embriagados pelo dinheiro e pela fama, são vítimas de mulheres que os procuram com toda a sorte de interesses. Se as mulheres que procuram os jogadores de futebol, embriagados pelo dinheiro e pela fama, são vítimas deles. Nesta relação, ninguém é muito inocente. Todos tem culpa.

Comentei o caso de Eliza Samudio e Mércia Nakashima de forma mais geral aqui, porém tal  pronunciamento do juiz ao dar a sentença merece sim um comentário e pelo menos um repúdio, pois é assim, né? O fato da garota sair com jogadores de futebol já a coloca como oportunista, vagabunda e maria-chuteira, Couto foi deveras infeliz nesta sua afirmação, pois em nenhum momento Eliza confinou Bruno para que ele saísse com ela ou então o ameaçou de morte para que desse dinheiro a ela? Até onde vi quem confinou, ameaçou de morte e matou não foi a mulher, mas sim o homem e generalizar que neste caso todos tem culpa é se deixar levar pelos valores moralistas e machistas arraigados na nossa sociedade.

Não avaliar o que é o mundo do esporte no Brasil e como os atletas são tratados, qual papel a mulher cumpre na sociedade e resumir tudo há uma relação de simbiose que em nada tem interferência do mundo em que vivemos é empobrecer o debate de forma tacanha e burra, podem dizer o Bruno foi condenado, vai cumprir prisão e Eliza foi vingada, a questão é que com juízes que re-afirmam a ideologia machista recheada de misoginia diversos casos de agressão e/ou morte de mulheres são levados com menos seriedade, sem compreender realmente qual a estrutura social que é referendada pela violência sexista.

É por conta dessa sentença e de diversas outras que o movimento feminista exige varas específicas para tratar da questão de violência contra mulher e que haja formação dos profissionais que irão atender estes casos.

Para além do debate sobre que casos a Lei Maria da Penha serve ou não a história de Eliza Samudio agora também nos serve para questionar como os casos de violência sexista são tratados pelo judiciário e todo aparato criado para atender mulheres em situação de violência. Pois quando o juiz Marco Couto coloca que tanto Eliza e Bruno são culpados pela morte dela ele se utiliza de um subterfúgio moral, condenando a postura de Eliza, visto que se ela fosse esposa ou namorada o questionamento sobre o comportamento dela não seria questionado pelo juiz ao dar a sentença.

Eu considero no mínimo preocupante a força com que volta argumentos do tipo tradição, família e propriedade, principalmente em um caso de feminicídio tão brutal quanto esse.

Fonte: http://bdbrasil.wordpress.com/2010/12/14/a-culpa-da-morte-de-eliza-samudio-e-de-eliza-samudio/

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