Uma outra Sakineh, ou, a invisibilidade de Teresa Lewis

Semana passada o caso de Sakineh Ashtiani voltou à tona por conta de uma estratégia de comunicação da Comissão Internacional Contra a Pena de Morte e Apedrejamento, a grande imprensa mundial foi surpreendida primeiro com o pronunciamento de Mina Ahadi afirmando que Sakineh havia sido libertada e logo após o pronunciamento tanto do governo iraniano quanto da Press TV de que a iraniana não havia sido libertada e que as imagens divulgadas dela em sua casa eram na verdade durante a gravação de um programa para a Press TV que iria reconstituir o crime que Sakineh cometeu.

Aqui no Brasil a estratégia de certo, a notícia de libertação de Sakineh ganhou primeira página nos jornais de grande circulação, entrou na escalada do Jornal Nacional e de diversos outros telejornais, assim como o desmentido da Press TV também ganhou o mesmo destaque, fora as  matérias feitas sobre o programa feito pela rede de TV iraniana, mostrando as imagens que foram gravadas e veiculadas no Irã na última sexta. A cobertura e superexposição de Sakineh a está dando uma sobrevida importantíssima, mas como já havia escrito aqui, infelizmente milhares de mulheres ainda estão morrendo, seja no Irã, seja em outra parte do mundo.

Enquanto o caso de Sakineh ganhava as páginas dos jornais pelo mundo e comovia diversos setores da sociedade, na Vírginia uma outra mulher esperava sem ter sua história alardeada por sua execução. Em setembro Ahmadinejad denunciava que o mundo apontava o dedo para o Irã e Sakineh, mas se esqueciam de Teresa Lewis, condenada à pena de morte no estado da Vírginia pelo mesmo crime que Sakineh cometera no Irã.

Não se trata de defender o Irã, até por que os casos de apedrejamento de mulheres devem ser repudiados e denunciados sempre, mas assim como devemos denunciar e repudiar o que o Irã faz temos que voltar os olhos para o que aconteceu nos EUA no último dia 23 de setembro. Teresa Lewis, diferente de  Sakineh, foi executada. Não houve repercussão internacional da execução da primeira mulher em 100 anos no estado da Vírginia, mulher que fora condenada pelo mesmo crime de Sakineh. Fecharam os olhos para Teresa Lewis e para sua pena.

Teresa havia se declarado culpada, foi indiciada como mandante do assassinato de seu marido e enteado. Os executores da ordem foram julgados e punidos à prisão perpétua, porém Teresa foi punida com a morte, visto que segundo o procurador geral da Virgínia, Ken Cucinelli, a pena de morte neste caso era aplicável por conta da “natureza brutal dos crimes e do comportamento insensível, manipulador, adúltero, ganancioso e chocante de Lewis”. Porém o professor de Psicologia da Universidade de Duke, Philip Costanzo,  entrevistou Teresa após a condenação e a caracterizou como tendo uma idade mental entre 12 e 13 anos, não passível de planejar ou executar homcídios e que possuía uma personalidade deveras dependente, passiva e que procurava a aprovação, em particular, dos homens.

A própria capelã, Lynn Litchfield,  do presídio de Fluvanna onde Teresa Lewis esperava pela execução pediu demissão do cargo para que pudesse enviar carta ao governo da Vírginia intercedendo pela ré, porém o governador negou clemência ao caso, mesmo que diversos apontamentos mostravam que Teresa era co-dependente e afins.

Por fim, o caso de Teresa Lewis fica como lição de que as coisas nesta sociedade não funcionam de forma isolada, que o machismo não escolhe este ou aquele país para se manifestar, mas que fazemos parte sim de uma sociedade que utiliza das bases machistas para justificar os requintes de crueldade contra as mulheres, pois uma coisa que cheguei a conclusão depois de ler diversas notícias sobre o caso de Teresa Lewis foi de que ela parou no corredor da morte por ser mulher, por ter traído o marido, por ter usado isso como subterfúgio para matá-lo.

Vejam bem, não justifico a morte de ninguém, mas acho que já passou da hora de ficarmos no dente por dente e olho por olho e principalmente justificar a morte destas mulheres por conta de valores moralistas e machistas.

Uma pena que com a volta do caso de Sakineh à mídia internacional não se voltou também esta atrocidade cometida pelos sempre amigos e corretos Estados Unidos da América.

Em tempo a última vez que o estado da Vírginia havia condenado uma mulher a morte foi em 1912, a ré era uma garota negra de 17 anos chamada Virginia Christian e foi acusada de matar a própria patroa sufocada.

fonte: http://bdbrasil.wordpress.com/2010/12/13/uma-outra-sakineh-ou-a-invisibilidade-de-teresa-lewis/

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