E então, o que a gente faz?

Larissa morreu ontem numa cidade aqui perto. Não se sabe direito por que morreu, mas o fato é que ela saiu com uma amiga, beijou um menino, voltou pra casa, apanhou da mãe, apanhou do pai, passou mal, foi pro hospital e morreu. Ainda não se sabe se ela morreu porque apanhou muito ou se morreu porque depois da surra bebeu o conteúdo de um vidro de xampu, que encontraram vazio. Ela tinha só 15 anos.

Todo dia morre gente, todo dia morrem mulheres de todas as idades. E o que a gente faz?

A gente assiste novela e acha o máximo quando a vilã toma uma surra da mocinha ou de algum outro personagem;

A gente sabe de gente que bate em filha, irmã, mãe, sobrinha, avó, e não se mete porque “é coisa de família”;

A gente fica vidrado na televisão e nos filmes de roliúde e enche o saco da filha da gente que tá ficando “muito gorda” e vai ficar “feia”;

A gente faz malhação do judas e rotula mulher de “biscate” quando ela desobedece a qualquer regra imposta pelas gentes de bem;

A gente acha que prostituta é lixo e acha beleza quando vê homem espancando, estuprando, diz que “é puta mesmo”;

A gente assiste programa humorístico que ridiculariza e avilta a figura feminina e racha o bico de rir;

A gente faz piada e reclama que o mundo tá ficando “muito sério” porque não pode zoar nada;

A gente manda a mãe calar a boca porque ela fala besteira, mas não reclama quando ela anda na linha e faz o papel da santa devotada, e faz a mesma coisa com funcionárias em cargos “subalternos”;

A gente junta com os amigos e brinca de “rodeio de gorda” com as meninas da festa, ou se não brinca pelo menos acha engraçado;

A gente explora o trabalho da empregada, regateia pra pagar menos, não registra, e reclama quando ela tem algum problema em casa ou no trânsito, perde hora, perde o dia, traz filho pequeno pro trabalho;

A gente não dá a mínima pelota pra campanhas publicitárias que sugiram violência física e psicológica contra a mulher, e imagina que bobagem, boicotar a marca, reclamar da peça de publicidade…

A gente passou o ano repassando mensagem dizendo “se chegar email dizendo que tem fotos da Dilma pelada, não abra, pode ser verdade”, e assentindo, dizendo “mas é uma bruxa mesmo”;

A gente tira sarro da professora feia, da velha, da gorda, da ignorante, mas quando entra professor na sala a gente fica bem pianinho;

A gente educa a filha pra ser boa moça, recatada, que “se preserva”, e cria filho macho na base do “amarrem suas cabras que meu bode tá solto”;

A gente faz o possível e o imposssível para regular e disciplinar o uso que as mulheres fazem do próprio corpo e da própria mente;

A gente tira sarro de quem reclama, de quem protesta, diz que é coisa de “radical”, de “feminista peluda mal-amada”;

A gente não entende como tudo isso aí em cima tem a ver com algum tipo de violência física e psicológica contra mulheres.

Ontem a Larissa, de 15 anos, morreu numa cidade aqui perto depois de apanhar do pai e da mãe porque beijou um rapaz. Mas todo dia mais um monte de mulheres morre no país todo e no mundo. De repente ou devagar, um pouquinho por dia.

25 de Novembro – Dia de Combate à Violência Contra as Mulheres
http://dehreloaded.blogspot.com/2010/11/e-entao-o-que-gente-faz.html

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