Em nome da filha e da mãe

http://atalmineira.files.wordpress.com/2010/11/margarida-31.jpgPor Sulamita Esteliam*

Mônica tinha 13 anos, quando Carlos cismou que ela seria dele. Obsecado, ao longo de oito anos, destruiu toda e qualquer tentativa de vida própria que ela buscasse ter. Enfrentou obstinada e ferrenha oposição da mãe da menina, Gercina, que parecia intuir o destino que a filha poderia vir a ter nas mãos daquele homem. Ele valeu-se de todo e qualquer expediente para fazer alcançar seu desejo, inclusive prerrogativas de militar.

Conquistou-a. Mais do que isso, tornou-a escrava de sua paixão desmedida.

Dividida entre o amor e o medo, Mônica bem que tentou resistir, buscando outros relacionamentos, com apoio da família. Chegou a casar-se com outro homem. Em vão. O destino, ou seja lá o que for, a atraía para o seu algoz. As cenas de espancamento, separação e retorno se tornaram rotina na vida do casal.

Mônica não foi a única. A primeira companheira do soldado também era vítima de pancadaria. Na frente dos filhos, aos olhos e ouvidos da vizinhança naquela Maranguape de meados dos anos 80.  O espantoso é que Mônica, assim como Eliane, apesar de denunciá-lo à polícia – como é o direito e é o dever de toda mulher -, acabavam por ceder, sempre, aos apelos e artimanhas do rapaz. E continuavam a viver com ele. Cegas de paixão e, ao mesmo tempo, atormentadas pelo medo, ambas tornaram-se escravas do fascínio que aquele homem exercia sobre elas. Eliane acabou vencida por um câncer, depois que Carlos Callou a trocou pela rival, pouco mais do que uma menina.

Que estranho poder é esse que leva uma mulher a colocar a própria vida em risco para continuar ao lado de um homem que a maltrata? O que o move? Como explicar tamanha obsessão?

Carlos dizia a Mônica que a amava, e que enlouqueceria se fosse obrigado a viver sem ela. Mas que amor é esse que machuca, tortura, aterroriza, subjuga, mata? E que amor é esse que se submete, se anula, se morre um pouco a cada dia…? Até que a morte, de fato, torna-se a única saída!?

Como tantas outras centenas de mulheres, Mônica, não escapou ao destino cruel: terminou não apenas mais uma vítima da violência doméstica, que situa Recife e de  Pernambuco dentre os líderes no gênero. Tornou-se alvo de uma avalanche de desacertos: de si mesma, do desvario de seu amado, da própria família, da omissão das autoridades, que deveriam proteger os cidadãos; e da impunidade, que costuma cercar os poderosos, ainda que este poder seja apenas uma farda de terceiro ou nenhum escalão.

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A história de Mônica é a crônica da morte anunciada – e denunciada, com profusão, pela mãe Gercina Francisca dos Santos e pela própria vítima. Ninguém fez nada para impedir. Aos 21 anos, Mônica foi queimada viva pelo companheiro, Carlos Antônio Callou, na presença do filho mais novo, de apenas três anos. Mais tarde, a criança contaria para um juiz da Vara da Infância e da Juventude:

– Ele amarrou ela na cadeira. Bateu com o pau na cabeça dela, e ela caiu no chão, chorando… Aí, ele botou álco e fez TUFT! Ela foi pra rua gritando muito… Jogaram areia e água nela…

Mônica sobreviveria cinco dias, internada no Restauração, o suficiente para confirmar quem havia sido seu carrasco. Suprema ironia, o assassino tinha por profissão combater incêndio e salvar vidas. Então, Carlos Callou já era um cabo do Corpo de Bombeiros.

Gercina, a mãe, quase enlouqueceu quando perdeu a filha, dia 15 de novembro de 1991. Mas encontrou uma razão para ressurgir das cinzas: criar os dois netos – órfãos também de pais vivos -, e fazer Justiça. Não seria nada fácil.

A família não dispunha de recursos, nem prestígio, nem pistolão. A mãe era uma simples funcionária pública da Prefeitura de Paulista, com renda de pouco mais que um salário mínimo, e um marido idoso, aposentado como trabalhador da construção civil. Contava, apenas, com os amigos, a própria coragem e muita determinação. Foi com essas armas que Gercina buscou a ajuda das entidades de direitos humanos, de sindicatos, ganhou a imprensa para a causa.

Moveu céus e terras, levou fama de louca, foi caluniada, injuriada, ameaçada. Foram nove anos de luta – coração em chagas, cabeça em brasa -, até conseguir que o assassino da filha fosse condenado: primeiro por tentativa de homicídio, depois por ameaça à família de sua companheira, e, por último, pelo assassinato de Mônica. Pegou 31 anos, no total, reduzidos para 24 anos.

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A saga de clamar por justiça consumiria toda a família. A coragem e a determinação de Gercina não alcançavam a dimensão da dor, do estrago emocional, psicológico – e até mesmo orgânico -, provocados nela própria, no marido, nos irmãos de Mônica, em todos, enfim. Sobre isso ela não tinha controle. Muito menos, Gercina podia controlar o que ia na cabeça e no coração dos netos, filhos de Mônica. Nestes, os efeitos seriam devastadores e irreversíveis…

O menino mais velho foi assassinado pouco depois de completar 18 anos, ao que consta, numa disputa por 50 reais. O mais novo é um sobrevivente: estuda e trabalha sob a tutela de um dos tios.

O cabo do Corpo de Bombeiros perdeu a farda, definitivamente, em 2003. A notícia não pôde ser comemorada. Então, ele já havia cumprido um sexto da pena total, e recebera progressão da pena, passando ao regime semiaberto. Saía da prisão todos os dias para trabalhar. Em 2004, obteve direito à condicional “por bom comportamento”. Artifícios da lei, mas é a lei.

Gercina morreu em dezembro de 2004, vítima de hemorragia cerebral. Inconformada, e aterrrorizada. A liberdade do algoz de sua filha foi a gota d’água. Tinha 56 anos.

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*Crônica baseada no livro Em Nome da Filha – A História de Mônica e Gercina, da autora, ainda inédito.

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