Fim da Violência Contra a Mulher – Dia 1

Umas discussões passeiam pela blogsfera: se uma pessoa branca pode militar na luta contra o racismo, se heterossexuais podem realmente ser engajados na conquista dos direitos dos homossexuais, se um homem pode autenticamente ser um feminista. A minha posição sempre foi simples: a gente é gente e se importa. Assim, o Borboletas tem, hoje, como convidado na Semana de Ativismo Fim da Violência Contra a Mulher, meu amigo Évio, do Contra a Maré, blog incrível e divertido, alimentado muito mais esporadicamente do que eu gostaria. Já dediquei um post a ele (Évio)e a própria existência deste blog aqui é um tantinho culpa do seu exemplo. Quem lê o Contra a Maré vai sempre encontrar arrojo, humor, sensibilidade (lê este post aqui e você vai entender) e é assim que ele aborda este tema tão delicado: Violência Doméstica. Não se pretende UMA verdade sobre o tema, mas a reflexão e a sensibilização para esse sofrimento que passa tanto tempo silencioso e, muitas vezes, tem como cúmplice a própria vítima. É um texto que me comove desde suas raízes, ele escreveu inspirado em sua moça, filha do coração que ele ama e cuida com desvelo.

Violência Doméstica de Gênero, Évio Gianni

Esta postagem é para minha moça, que já namora a um bom tempo, e nunca teve problemas, mas apesar de eu já ter dito infinitas vezes o que vou escrever aqui, vou deixar registrado porque quero alertá-la e protegê-la. Estava revisando umas leituras para uma apresentação e… aqui estou escrevendo.

A coisa mais importante que eu considero que tem de ficar muito clara sobre violência doméstica contra a mulher (detalhe é que existe violência doméstica contra homens, mas quero abordar só contra a mulher nesse momento) é que ela não começa na tapa, ou no murro, ou na surra. Nunca começa assim, NUNCA!

O perfil do agressor de mulheres é quase sempre o mesmo. É um homem, ou mulher (no caso de relações homoafetivas) com profunda insegurança e que, por proteção, contrói uma máscara de valentia e “macheza” e intransigência como forma de afastar as pessoas e assim não se ferir afetivamente. Uma parcela significativa deles é socialmente muito cordata e aparentemente gentil, mas dentro da relação são intolerantes. No fundo são homens (para falar do mais comum) que possuem sensibilidade, mas com o passar do tempo brutalizam-se a ponto de tornarem-se aparentemente insensíveis, vivendo num mar de medo e apreensão. A agressividade desse tipo de homem é canalizada para vítimas igualmente inseguras e indefesas (para garantir sua sensação de poder). Raramente são homens que, diante de um conflito com outro homem, tem coragem de tomar qualquer iniciativa, mas contra mulheres e idosos ele “reina”.

Não há faixa etária para apresentar esse tipo de comportamento. O agressor de mulheres estabelece relações afetivas doentes desde os primeiros namoros. Como? Repetindo, nunca começa com a agressão física. Inseguro como é, ele “testa” inúmeras vezes a suscetibilidade da parceira antes de dar o primeiro “cascudo”. Ele só agride depois que tem certeza de que ela vai aguentar calada as agressões.

E como se constitui a violência? Ela começa afetivamente no começo do namoro. Começa quando o rapaz regula as roupas da moça e ela cede. Quando ele regula os horários da garota, travestido de atenção e romantismo, ele liga para ela 20 vezes num dia para dizer que a ama, mas também para saber onde ela está, com quem e fazendo o quê. Progressivamente a vida da moça passa a ser controlada pelo namorado. Ela afasta-se lentamente das amigas e dos programas com pessoas que não sejam amigos dele. Como ele é inseguro, não admite contestação ou crítica, e “força” que a mulher afaste-se de todos os que discordam dele, de seu comportamento, de suas idéias ou de quem ele tem ciúme. Também por insegurança, é comum que esses homens sejam excessivamente promíscuos, “cantando” até as amigas da mulher para demonstrar que é “muito homem”.

O ciúme é onipresente nessas relações. O agressor tem ciúme das roupas, pessoas, pensamentos e até um sonho é motivo para uma crise. Em contrapartida, a mulher acha que ele tem ciúme porque a ama demais e aceita passiva, e até com prazer no início. Há brigas constantes e, não raro, no início, fica aquele separa e volta no namoro.

Além das crises constantes, um ponto invariável é a satisfação que vem com as reconciliações. Em geral, depois de uma grande briga ou separação a reconciliação é muito romântica e sensível. Ele pede perdão, chora aos borbotões, dá presentes, ameaça se matar, faz declarações públicas de amor e fica super atencioso por vários dias. A mulher adora e, por amar demais, vê isso como sinal de “mudança”, de arrependimento. Outro ponto invariável é que, para os casais sexualmente ativos, o sexo nas reconciliações costuma ser muito prazeiroso. Ele se esforça para dar-lhe prazer e aos poucos a mulher vai se habituando a esse modelo, onde uma briga, acaba significando em breve uma noite “muito quente”.

As primeiras agressões são, invariavelmente, verbais. Um “sua rapariga” bem colocado numa cena de ciúmes, ou um “cale a boca” em uma discussão costumam ser os primeiros passos. Depois ele pede mil perdões e a mulher perdoa.

Eu, sinceramente, acho que as mulheres são agredidas por amar demais e por insistirem em acreditar apenas no que escutam e não no que vêem. As mulheres preferem acreditar no que o homem diz e não no que ele faz. Um homem pode falar que ama demais a qualquer hora do dia, mas isso só será verdade se ele agir de maneira condizente. Não vale dizer que quer ficar junto e não deixar a outra namorada, ou não diminuir as farras, ou não apresentar aos amigos, ou não conhecer os amigos dela. A parceira de um agressor também é insegura e, por isso, prefere acreditar no que ele fala independente do que ele faz tendo fé na “mudança”, mas ele não vai mudar.

As relações que o agressor estabelece só duram se a mulher passar nos “testes”, até chegar o dia em que ele está suficientemente seguro (que ela vá suportar) para dar o primeiro empurrão, no meio de uma briga. Depois da briga pede desculpas, chora, promete que nunca mais vai acontecer e cobre a mulher de beijos, abraços e presentes (nem sempre os presentes são materiais, passeios, jantares e atender a desejos da parceira é o mais comum).

Mas isso não é comum? Depois de uma briga de casal a reconciliação é amorosa. Sim, é comum, mas a diferença de uma relação adoecida é o “poder” envolvido! As questões do casal adoecido sempre giram em torno disso, PODER! O agressor quer, constantemente diminuir a parceira e subjugá-la para assegurar que tem “poder” sobre ela. Ele quer sentir-se seguro de que ela o teme e que não vai abandoná-lo, além de obedecê-lo em tudo. Em geral o agressor prioriza o início das confusões em locais onde a reação da mulher fica coagida. São reuniões de família, onde ela tem vergonha de que saibam, no trabalho, no cinema, ou em qualquer situação onde ele saiba que ela preferirá calar-se a correr o risco de alguém ver.

Progressivamente, evoluindo do controle de horários, do veto de amizades, do afastamento social, das ofensas, das ameaças até as agressões físicas tudo vai piorando com o tempo. E, invariavelmente, não pára. Nunca retrocede. A única situação em que tradicionalmente faz cessar a violência dessas relações é quando um terceiro causa temor ao agressor, que para de agredir, mas costuma continuar a ameaçar. Geralmente quando os filhos homens crescem, intervêm nas agressões e, não raro, ocorrem tragédias familiares. Pais e irmãos também entram nesta estatística. Contudo, o apoio da família é muito fragilizado porque, além do medo, a mulher tem vergonha e se afasta justamente dos que mais a amam e que podem ajudar mais. É rotineiro as famílias detectarem cedo as agressões e alertarem as mulheres e serem ignoradas.

Apesar de agir, em geral inconscientemente o agressor costuma estraçalhar a auto-estima feminina discordando dela em tudo, afirmando que ela é burra, que é feia, que é tola e que é praticamente um favor, ou milagre, um homem como ele, maravilhoso, querê-la.

Cada vez mais só e insegura a mulher agredida, teme ser morta se deixar o marido/amante/namorado. E elas tem certa razão, porque é no momento em que as mulheres abandonam seus agressores que ocorre o maior número de casos graves. É uma situação delicada, mas a mulher pode e deve tentar escapar dessa armadilha a qual ajudou a se prender. A família e uma série de políticas de atendimento, abrigo e proteção judicial estão à disposição da população, embora em número muito menor que o necessário. Informem-se sobre a Lei Maria da Penha, é importante e pode ajudar.

A melhor chance das mulheres não ficarem expostas a esse tipo de situação é considerar inadmissível, desde muito cedo, desrespeito e agressão. Desde o namoro, desde a paquera. Esses agressores afastam-se rapidamente de mulheres que não admitem esse tipo de controle. Eles preferem mulheres jovens, inexperientes, sem família próxima ou com pais idosos ou sem homens na família.

Outra reflexão valiosa. NÃO EXISTE ex-agressor! Pelo menos não sem tratamento e/ou um longo percurso de mudança pessoal. Caso o seu parceiro já tenha agredido outra namorada anteriormente, pode esperar que mais dia menos dia o seu olho roxo vai chegar. Igualmente não existe essa história de que:
– Ele fez isso com ela porque é uma vadia, mas ele não tem motivo comigo que sou uma mulher séria!
Vou repetir, isso não existe. Ele vai arrumar motivos para agredí-la. Não é opção dele, é a única forma que ele tem de sentir-se seguro e a coisa toda só tem uma direção, que é piorar porque a insegurança nunca para. Tecnicamente, tanto o homem quanto a mulher estão “doentes” mas vítima, só tem uma, e é a mulher.

Por fim, é necessário diferenciar uma agressão isolada para uma situação de violência doméstica. Há casos em que ocorrem agressões em situações específicas e que não se aplicam a este apanhado de idéias que apresentei. Contudo, mesmo elas, demonstram claramente que a relação do casal já perdeu a validade e não faz nenhum sentido de existir.

http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/11/fim-da-violencia-contra-mulher-dia-1.html

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