O que esperar de uma mulher na Presidência?

Maíra Kubík Mano

Ao que tudo indica – a não ser que os institutos de pesquisa estejam redondamente enganados – o Brasil terá, a partir de janeiro de 2011, uma mulher na Presidência da República.

Uma mulher!

É verdade que três mulheres já haviam nos governado antes: D. Maria I (à distância, ainda como rainha de Portugal), Maria Leopoldina (esposa de D. Pedro I) e a Princesa Isabel. Mas, com exceção de D. Maria I, as outras duas funcionaram apenas como “tapa-buracos” – sim, eu sei, uma delas assinou a abolição da escravatura, mas ainda assim… E, obviamente, todas vinham da Família Real portuguesa, uma referência cada vez mais longínqua na nossa história.

Dilma Rousseff será a primeira mulher eleita pelo povo para dirigir o Brasil. Simbolicamente esse é um fato incrível, independente de sua matiz ideológica. Em especial se considerarmos o quanto as mulheres seguem sub-representadas na política nacional: nessa última legislatura, éramos apenas 8,97% da Câmara Federal e 12,34% no Senado, número que caiu em 2010. Aliás, se nossa base de cálculo fosse essa, eu arriscaria afirmar que demoraríamos mais uns cem anos para ver a cena que ocorre hoje.

Dito isso, é preciso ter em conta que a eleição de Dilma não é sinônimo de termos um governo que apóie pautas feministas. Já teci longos comentários aqui sobre a masculinização da política e como muitas mulheres se comportam como homens para poder chegar ao topo. Dilma não é diferente. Tanto que sofreu com muitos boatos cruéis e “acusações” sobre sua sexualidade como reações ao endurecimento de postura.

Vale lembrar que a candidata também não tem tradição de militância no campo de gênero, diferentemente de seu partido, o PT. E, além de não ter um olhar mais aguçado para esse tema, sua campanha eleitoral não deixou dúvidas sobre os parâmetros dos quais vai partir o novo governo: os da família, no molde mais tradicional e opressor possível. Basta lembrarmos que Dilma ressaltou seu papel de mãe (e avó) em contraposição à legalização do aborto, ainda que tenha dito que não deixaria mulheres que precisassem de curetagem morrer na porta dos hospitais do SUS (Sistema Único de Saúde).

Na verdade, se pensarmos no quão conservador se tornou o debate em torno dessa questão, não seria exagero dizer que o cenário piorou para as pautas historicamente ligadas ao feminismo. E, para além de ações isoladas, principalmente da Secretaria de Políticas para as Mulheres, o governo Dilma dificilmente contribuirá para reverter isso.

Resta torcer (e pressionar) para que alguns ventos dos pampas e da Cordilheira a inspirem, arejando a cena política brasileira. Dilma será a terceira mulher presidente na América do Sul e seria bom se, em alguns pontos, ela seguisse o exemplo de suas correlatas. Michelle Bachelet, ex-mandatária chilena e atual diretora da ONU Mulher, nomeou 50% de mulheres em seu gabinete quando presidente – medida tomada também pelo boliviano Evo Morales. Já a argentina Cristina Kirchner não só aprovou o matrimônio gay como deixa o país a um passo de descriminalizar o aborto.

É, pensando bem, talvez um vento seja pouco para o que foi essa onda terrível que assistimos no segundo turno. Esperemos, então, por um tsunami político para mudar o rumo das coisas.

Fonte: http://viva.mulher.blog.uol.com.br/

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