Dilma e o aborto

por Luciana Ballestrin*

Nas sociedades democráticas e plurais com Estado de Direito laico, a luta pela despenalização da interrupção voluntária da gravidez é uma das maiores reivindicações e/ou conquistas do movimento de mulheres. É um tema que diz respeito à emancipação e libertação feminina, porque toca no direito individual de escolha de cada mulher. Em sociedades com desigualdades sociais e econômicas, o aborto também é um problema de saúde pública: as mulheres que possuem mais recursos financeiros recorrem às clínicas clandestinas particulares. Caríssimas, os seus métodos não provocam dor. As mulheres pobres por seu turno têm de contar com intervenções baratas, arriscadas e doloridas. O popular chá do aborto provoca contrações de dor delirante. É pela consciência de todas essas questões que em vários países desenvolvidos, existe a descriminalização do aborto voluntário. Mesmo Portugal, um país com forte tradição católica e conservadora, avançou no tema aprovado por Referendo Popular em 2007. A questão do aborto, portanto, é uma questão de Justiça, de saúde e de direito da mulher.

A grande inimiga dessa luta tem um nome: religião. Por ser fundada em crença, está afastada das leis, da ciência e da verdade. Obviamente, a fé é algo completamente legítimo, porém não necessariamente justa. Daí é que entra a questão da moral e da ética. Para algumas crenças, interromper uma vida celular de poucos dias é sinônimo de matar uma criança. A ciência prova que não o é. Mas, de que vale a ciência para as pessoas que reproduzem esse raciocínio? Se as mulheres dependessem da religião para figurar suas lutas, a pílula ainda seria proibida.

Nestas eleições, uma forte onda conspiratória atravessada pelos setores mais conservadores e reacionários da sociedade brasileira foi responsável para a ida ao segundo turno. A estratégia de espalhar medo é bastante eficiente pela direita no Brasil: em 1989, Lula desapropriaria apartamentos e fecharia todas as igrejas; em 2005, o desarmamento era um prenúncio de golpe; em 2010, assiste-se a uma demonização inédita de uma mulher. Inédita porque pela primeira vez temos a possibilidade de eleger uma para Presidente do Brasil. Dilma Rousseff está completamente atrapalhada porque sem dúvida não esperava que a campanha contra a sua pessoa fosse tão cruel e caluniosa. Quando se diz que a candidata foi guerrilheira, o que está querendo se dizer? Que ela dará um golpe contra si mesma quando tomar o poder? Que ela fará a revolução? Da mesma forma, os boatos sobre sua posição favorável ao aborto tem qual significado? Que ela no dia primeiro de janeiro baixará um decreto-presidencial liberando a prática?

Dilma está sendo publicamente perseguida inclusive por ser mulher. Uma mulher guerreira, torturada quase até à morte, vencedora de uma luta recente contra o câncer. A onda verde infelizmente não existe. Se Dilma perder pelas campanhas paralelas do medo e do boato, a democracia e o Estado laico estarão em risco no Brasil. É extremamente preocupante se o machismo, o obscurantismo e o moralismo forem os vitoriosos destas eleições.

* Professora de Ciência Política da UFRGS
Fonte: http://mmm-rs.blogspot.com/

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