Quanto custa minha liberdade?

A pílula anticoncepcional nos liberou, mulheres, da alta probabilidade de engravidar sem desejarmos. Ela nos deu a posibilidade de escolhermos o que acontece com o o nosso corpo – mas não contávamos com o alto preço que pagaríamos por esta liberdade. Por que é que nós é que temos que pagar tão caro?

Toda sociedade tem um esquema simbólico, uma espécie de jeito de classificar, hierarquizar e entender o mundo, que organiza a via prática. O fato de as coisas serem para nós “boas”, “feias”, “nojentas”, e tantos mais atributos que lhes concedemos, não é um dado da natureza das coisas. Quer dizer, não há nada na constituição físico-química de uma certa cadeira que ateste que ela é universalmente bonita ou feia. A mesma cadeira pode, portanto, ser linda para uma sociedade e completamente esquisita ou desfuncional para outra (há culturas, por exemplo, em que a posição “sentada” nem é considerada uma posição de descanso).

Uma das criações simbólicas da nossa sociedade, a maternidade enquanto realização na vida das mulheres, é sempre pivô na discussão da igualdade (ou das desigualdades) de gênero. Vejam bem: inventamos (nós enquanto sociedade) um conceito de maternidade e o classificamos na hierarquia junto com as coisas consideradas “boas” e “essenciais” na vida de uma mulher. Achamos muito mais nobre uma mulher que é mãe do que uma mulher que não tem filhos. “Ter filhos”, ao mesmo tempo, também foi classificado como algo “bom” (porém não “essencial”) para os homens. Quando da relação de casais heterossexuais, a gravidez e os filhos têm sido classificados regularmente como algo de responsabilidade feminina.

[Notem que não se fala aqui diretamente de leis, mas de regras não escritas – que podem se refletir nas leis, no entanto – que ordenam nossa vida prática; por exemplo quando casais têm de decidir quem abre mão da carreira para cuidar de filhos pequenos e as mulheres quase sempre tomam para si esta tarefa.]

Na segunda metade do século 20, porém, o início da distribuição comercial de pílulas anticoncepcionais para mulheres trouxe uma mudança importante. Tomando a pílula, as mulheres poderiam escolher se queriam para si ou não e em que momento da vida, esta responsabilidade que lhes é atribuída pela sociedade (é até engraçado que as pessoas normalmente “excluem” as mulheres quando se fala em “sociedade” e aí os leitores ficam todos atacadinhos achando que estou os acusando – não é isso, entendam, todos temos um papel pró-ativo na reprodução destas classificações). Isto foi um salto enorme na qualidade de vida e na liberação das mulheres.

Esta liberação, a da pílula, me parece no entanto bem relativa. Embora as primeiras pílulas anticoncepcionais fossem bem mais agressivas ao corpo do que as pílulas de hoje, nas quais a dosagem de hormônios e os tipos de hormônios são bem variados adaptando-se a diferentes corpos e necessidades, além das várias formas de anticoncepcional que já descrevi neste blog, as mulheres do século 21 também se defrontam com uma série de problemas causados pela pílula. Tendo crescido feminista demorei muito a abandonar minha visão romântica de que a pílula anticoncepcional era a oitava maravilha do mundo. Não é. O uso prolongado pode causar uma série de problemas – e, com frequencia, causa.

Aí algum desavisado vai pensar: “Pô, é só não fazer uso prolongado”. Então pensemos: você perde sua virgindade lá com seus 16 anos. Começa a tomar pílula, pois agora tem oficialmente uma “vida sexual ativa” (ou, no mínimo, faz o que dá pra conseguir a tal vida sexual ativa, tipo procurar namorado/a, se empetecar, ficar com uma galera por aí, etc). Ou então, tá, vamos ser menos otimistas com a capacidade de as pessoas arrumarem parceiros/as – suponhamos que você começa a tomar a pílula com seus 18 anos (com essa idade acho que todas as minhas amigas do colégio já tomavam, eu inclusive). Cara-pálida, com que idade você vai parar de tomar a pílula? (Ó, estamos falando primordialmente das mulheres nos grupos sociais que mais fazem uso da pílula) São 5 ou mais anos de faculdade, sem contar cursinho e depois entrar no mercado de trabalho e ter uma carreira mais ou menos estável, pra daí sim desejar ter filhos, como se pretende fazer por aí. Gatonas, isso são DEZ anos de uso de pílula pelo menos. Não é prolongado? Não é necessário? E aí ficamos como nessa história?

Respondo. Ficamos com cânceres, efeitos colaterais, trombose, embolia, varizes, nódulos no seio e por aí vai. Mas quem trocaria tudo isso por uma gravidez indesejada? Nem a pau, Juvenal.

Aí passamos a pensar em soluções. Abstinência sexual? No, thanks. Usar só camisinha como método anticoncepcional? Até parece. Usar uma combinação de outros métodos super não-práticos como espermicida, diafragma, etc? Maior pentelhação e, além do mais, não são tão eficazes quanto a pílula. Percebem como estamos numa sinuca de bico?

Passo a questionar, então: por que nós? Por que somos nós, mulheres, que temos que nos prevenir contra gravidez? Por que nós é que temos que ser responsabilizadas pelos nosso nódulos, cânceres, embolias, varizes, etc? A culpa é minha por que eu tomei pílula? A culpa é minha por que eu não tomei? Por que a culpa destes efeitos colaterais nunca é dos homens com quem me relacionei que jamais me deixaram segura de que não iriam forçar a barra pra transar sem camisinha (namorados inclusive)? Por que nós é que somos responsabilizadas pelos nossos abortos também? Por termos engravidado? (Percebam que neste caso a pílula é inclusive usada como argumento de responsabilização – “se não queria engravidar que tomasse pílula”).

Já ouvi dizerem por aí que é “mais fácil” fazer o útero não fixar o embrião do que fazer o esperma, de algum jeito, não fecundar. Não tenho como dizer pois não sou médica nem cientista da área de biológicas, mas tenho como dizer, seguramente, que nada é naturalmente em si “mais fácil” do que alguma coisa. “Mais fácil” é sempre uma classificação, um julgamento. E, óbvio, numa sociedade onde a maioria esmagadora dos cientistas são homens (mesmo nas áreas onde os cursos de graduação têm mais mulheres do que homens), mexer no corpo da mulher é sempre “mais fácil”. A mulher, mesmo para as mulheres, é “o outro”, como já dizia minha querida Simone de Beauvoir. Pensem só se não faz sentido numa sociedade onde o homem tem que ir atrás de sexo e a mulher tem que dizer não (caso contrário é punida, como aconteceu com Eloá – veja o post sobre o caso), o esperma ser sempre supersaudável para fecundar e o útero dizer “não” ao não fixar o embrião.

Digam-me: não são perversos esses mecanismos de dominação de gênero?

Ok, ok. Mas como mudar? Simples. Além de políticas públicas, mais mulheres cientistas. Mais atenção para esta desigualdade, para estes esquemas. Experimentem perguntar-se, para tudo que vocês pensam, vêem e ouvem, “por que”, “de onde vem”, etc. Vão perceber, aos poucos, que nada disso aqui é normal, natural, mas totalmente arbitrário. Se é arbitrário, se nós é que criamos, é completamente passível de mudança.

Porque não quero ser eu a estragar meu corpo para poder escolher quando (e se) ter bebês. O faço pois não tenho, agora, outra saída. E vocês?

http://www.mulheralternativa.net/2010/09/quanto-custa-minha-liberdade.html?utm_source=feedburner&utm_medium=twitter&utm_campaign=Feed%3A+MulherAlternativa+%28MulheR+%E2%80%A2+AlternAtivA%29

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