Feminismo 2.0 contra o machismo neandertal

por Bruna Provazi

Não é novidade nenhuma pra nós feministas que as mulheres são, cotidianamente, vítimas de opressão. Também não é novidade pra nós que a opressão é transversal: tá na repressão que sofremos de pais, namorados ou maridos, no assédio do chefe, do pedreiro da esquina ou do trocador de ônibus, nas imposições das revistas femininas e nas estereotipias dos meios de comunicação em geral. Talvez por isso eu não tenha me espantado muito quando uma amiga me enviou, por e-mail, o texto do machistão nojento, professor da FAAP e especialista em conservadorismo, religião e mau gosto, Luiz Felipe Pondé – a quem prefiro chamar, carinhosamente, de “Luizinho”.

Um textinho medíocre, uma vomitadela de clichês tipo cantada de tiozinho bêbado em final da balada. Algo mesmo como “as feministas são mal-amadas, mal-comidas e mal-depiladas – aliás, nem se depilam (que horror!)”. Preguiça, né, gente? Entretanto, como, infelizmente, o doutor Luizinho conseguiu espaço na Folha de São Paulo (só pra constar: caguei pra Folha); como, pra nossa tristeza ainda maior, algumas dezenas de pessoas certamente leram esse monte de besteira; e como, obviamente, não temos direito de resposta nesse jornaleco, a verve feminista nos colocou, imediatamente, em posição de esclarecer um pouco as coisas pr@s leitores do Luizinho. E é daí que esse texto deveria começar, na verdade.

No debate de abertura do Ladyfest Brasil desse ano, entitulado Feminismo Além do Bem e do Mal: aliança feminista contra o machismo blindado, Vange Leonel falava algo sobre como o machismo é de tal forma estruturado na sociedade, que é como se tivesse uma blindagem. Sabe o senso comum sobre a amizade masculina e a rivalidade feminina? Meninos compartilham façanhas sexuais, chamam-se uns aos outros de viado e filho da puta, e jogam bola aos finais de semana. Meninas duelam pelo bonitão do colégio, invejam a roupa e o cabelo umas das outras e falam mal das outras pelas costas. Tudo socialmente aceito e naturalizado: normal.

É sobretudo contra essa couraça machista, de tal forma construída e consolidada, ao longo dos anos, pelos pais e avós dos Luizinhos, que temos que lutar, diariamente. E é por essas e outras que temos que abandonar tais naturalismos, tão velhos e obsoletos quanto o texto de nosso amigo – e quanto a ideia de que vivemos em eterna disputa pelo pênis perfeito – em prol dessa coisa maior a que chamamos auto-organização.

Na tarde dessa segunda-feira ensolarada, bastou uma rápida troca de mensagens eletrônicas para que a rede feminista fosse acionada. Do trabalho, do estágio, da faculdade e de casa, rapidamente levantamos a ficha do doutô e nos pusemos a lutar com as palavras, contemplando a blogosfera com lições de história e tons de poesia. Também mandamos e-mails pro Luizinho e pro jornalzinho, claro. Irônicas, irritadas ou arrogantes, publicamos, tuitamos e retuitamos nossa própria versão de nossas próprias vidas. Felizmente, fazemos parte da parcela da população que tem acesso às teclas e às letras. Afora nossa evidente inclusão sócio-digital, sobressai, EM CAIXA ALTA, a vantagem de estarmos organizadas nessa rede feminista de solidariedade e ativismo político.

Muitas vezes, em minha vida, quis encontrar amigas para compartilhar a opressão isolada que eu sempre senti e que, até então, não compreendia como sendo coletiva: a tal da opressão de gênero que atinge a todas as mulheres, em maior ou menor grau. Algum tempo depois, encontrei companheiras com as quais pude pensar alto, aliviada por saber-me não mais sozinha e por compreender que meu sentimentos não eram efeito de puro delírio ou de álcool puro. Mas, cada vez mais, estou convencida de que não bastam desabafos em mesa de bar ou felizes histórias de self-made women que superaram desafios e, de alguma forma incrível, tornaram-se ricas, independentes(?) e casaram-se com Luís Fernando de la Vega.

Troco a picanha de domingo pelo ativismo cotidiano e organizado, não pelo bife de soja diário do restaurante indie da moda, porque o sistema capitalista-patriarcal não admite “soluções individuais para problemas coletivos”. Como diz o Team Dresch: Freedom is freedom: it’s for all or it’s all for nothing.

Seguem bons textos publicados em resposta ao nosso amigo doutô:

Sobre pelos e nojos, em Roupas no Varal
Resposta a Pondé – A obsolência das Agonias Contemporâneas, em Ofensiva contra a Mercantilização
A clara agonia de um homem senil, em Ofensiva contra a Mercantilização
E se eu não quiser me depilar, algum problema?, em Viva Mulher
As mulheres tem motivos para lutar, em Blog Muié

É por essas e outras que agradeço ao Luizinho pela gentileza. Como já disse, algumas vezes, essa semana: se cada manifestação pública de machismo gerar tanta produção boa quanto as que li nesses últimos dias, vou tentar parar de criticar a Folha, o CQC, o Pânico, os filmes hollywoodianos, as revistas femininas, os meios de comunicação de massa, o meu colega de trabalho, o seu vizinho, os nossos pais…

http://brunaprovazi.wordpress.com/2010/09/16/feminismo-2-0-contra-o-machismo-neandertal

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