Por que não devemos transformar as eleições em um plebiscito sobre o aborto

Por Vinicius Wu

Num país onde uma mulher morre, vítima de abortos ilegais, a cada dois dias, este certamente não é um tema sem importância. Assunto relevante, sem sombra de dúvida. Porém, posto da forma como assistimos nas últimas semanas, corre o risco de tornar-se apenas um falsete (*) eleitoral, capaz de comprometer o debate público a respeito do futuro do país e nos conduzir a um dramático retrocesso político.

Desde o início da campanha presidencial, os estrategistas da campanha Serra compartilham a certeza de que as chances de vitória do candidato do PSDB dependem diretamente de sua habilidade em desviar-se do debate sobre o presente e o futuro do Brasil. Cientes do desastre que seria para a candidatura Serra a comparação entre os governos Lula e FHC buscaram, sistematicamente, fugir do debate.

Inicialmente, propuseram o “contraste de biografias”, que não obteve sucesso. Mas, embalados pela onda conservadora das últimas semanas – adianto minha opinião de que a tal “onda verde” não passa de ficção – arrancaram um antes improvável segundo turno. Agora sabem que a única hipótese de Serra vencer as eleições é a permanência deste clima de distorção do debate político nacional, que parece ter transformado as eleições presidenciais num plebiscito sobre o aborto.

O falsete de Serra significa assumir uma posição que não é sua, que destoa completamente de sua tão propalada “biografia”, aderindo a um jogo sujo e retrógrado que faria Mario Covas enrubescer-se de vergonha. Serra é sacerdote de sua própria causa, de seus próprios interesses e seria capaz aderir à posição oposta à atual se vislumbrasse aí o caminho mais curto até a presidência.

O resultado do primeiro turno demonstra que a tal “onda verde”, na prática, foi muito mais modesta do que a onda conservadora, que deslocou intenções de voto na direção de Marina Silva. A candidata do PV, independente de seus méritos, não chegou a sua expressiva votação em virtude de sua agenda ambiental, mas em função de temas morais e religiosos.
Um contingente expressivo e “silencioso” escapou das sondagens feitas pelos institutos de pesquisa exatamente pelo fato de ser parte integrante da base social do “lulismo”. Este eleitor, em especial, no Nordeste e periferia das regiões metropolitanas do Sudeste, recusou-se a aderir à candidatura tucana e deslocou-se em direção a Marina como forma de mandar um “recado” a Lula, que pode ser traduzido da seguinte forma: “estamos satisfeitos com o país e confiamos em você, mas queremos segurança em relação a temas com os quais não temos acordo”.

Seria um erro acreditar que a mera adesão de Marina – e menos ainda do PV – a qualquer uma das candidaturas venha a transferir automaticamente estes votos para Serra ou Dilma. A tarefa fundamental da campanha Dilma, neste momento, é reorganizar e recoesionar sua base social. Num segundo momento será preciso deslocar a “agenda” das eleições em direção a temas com os quais Serra não pode se confrontar, tais como crescimento económico e distribuição de renda, privatizações e papel do Estado, política internacional, integração , desigualdade social e regional etc. Em outras palavras, é preciso evitar o plebiscito proposto pelas forças conservadoras.

No terreno proposto pelo adversário, Dilma encontrará grande dificuldade, pois, sua história e o espectro de forças políticas que a apóiam são incompatíveis com o obscurantismo e o reacionarismo tacanho que impregna o discurso de Serra. É preciso, portanto, restabelecer o debate acerca do futuro do país e rejeitar o falsete tucano. Não será uma tarefa simples. A reorganização da base social e política de apoio ao Presidente Lula é o primeiro passo fundamental neste sentido, mas a paralisia de nosso campo em torno de uma agenda conservadora não contribui para isto.

Reorganizar a base social que apóia o Presidente Lula pressupõe a recomposição dos laços sociais que nos unem a parcela expressiva dos vinte milhões que votaram em Marina. Afinal, estes são parte dos milhões de brasileiros que passaram a ter acesso a uma vida digna, seja migrando para a classe média, conquistando um emprego ou acessando, pela primeira vez, a luz elétrica.

Mas também fazem parte destes milhões de brasileiros, jovens desiludidos com a política e com os políticos, mas que desejam encontrar um sopro de esperança nestas eleições. Dilma deve assumir um discurso duro de enfrentamento a corrupção e demonstrar o quanto já foi feito pela PF, pela CGU e demais órgãos de controle, muitos dos quais criados durante o governo do Presidente Lula. José Serra não tem autoridade moral e nem condições políticas de assumir a batalha pela ética na política.

É hora de encerrar o plebiscito do atraso e falar do futuro que nos aguarda se soubermos seguir em frente; se optarmos por seguir mudando. É preciso tirar forças do atual momento para recompormos nosso compromisso com a mudança e, mais uma vez, evitar que o medo se sobreponha à esperança

Twitter: @vinicius_wu

(*) Falsete (tom falso) é a técnica vocal através da qual o cantor emite, de forma controlada, sons mais agudos que os de sua faixa de freqüência natural. No caso, é evidente que Serra jamais foi um “moralista” cristão, mas adere a retórica do atraso num pragmatismo atroz e irresponsável.

Fonte: http://rsurgente.opsblog.org/

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