meu voto carniça

Eu entendo o que Dilma quer dizer com “não acredito que tenha mulher a favor do aborto“. Eu já a vi pronunciar essa frase, exatamente a mesma, em pelo menos três ocasiões distintas, recentemente. O posicionamento favorável à descriminalização do aborto, não sendo meu critério definitivo para votar em alguém, ao menos compõe o pré-requisito imprescindível que determinará a exclusão de um candidato do meu campo de possibilidades. Isso explica porque eu não vou votar no Plínio, que diz praticamente o que eu gostaria de ouvir de um presidente a respeito do aborto, tanto quanto explica porque eu nunca, jamais votaria na Marina ou no Serra, caso já não estivessem, ao meu alcance, outros trinta bons motivos pra rejeitar o zolhudo. Não perdoo a desfaçatez de Marina em propor um plebiscito para resolver uma questão tão delicada contra a qual ela está previamente, oficialmente posicionada. Não é pessimismo meu achar que um plebiscito sobre aborto não apenas arrasaria qualquer possibilidade de mudança na legislação, por conta de uma votação maciça pelo não, como incitaria, na fase de campanhas e debates, aquele discurso pró-vida radicalmente violento, moralista, opressor, ignorante. Marina Silva deveria suspeitar que nem sempre a vontade da maioria é o melhor caminho a seguir, e que as minorias, como é o caso das mulheres que querem abortar fora das situações já autorizadas por lei, também precisam de proteção e respaldo legal. Quanto a José Serra, eu, francamente, tenho pouco a dizer. Se considero cínica a postura da ecocapitalista (obrigada, Plínio), a dele, que disse que a legalização do aborto promoveria uma “verdadeira carnificina” não pode ser menos do que vil. Já não me importam seus (supostos) feitos como ministro da saúde, se agora, como candidato a presidente, ele me chama de carniceira e ainda pede meu voto. Não, cafajeste, não terá meu voto e também não se beneficiará com o esquecimento: a carniceira aqui é turrona.

Minhas expectativas quanto à Dilma talvez estivessem um pouco elevadas, e por isso eu digo que entendo o que ela quer dizer com “acredito que nenhuma mulher seja a favor do aborto“. Quero dizer, eu acho que entendo, porque nesse ponto, Dilma tem sido reticente e cuidadosa, que é o ônus de sua liderança nas intenções de voto do brasileiro. Eu sei que ela nunca poderia fazer o discurso que faz o Plínio, ou, em outros termos, o Plínio só pode fazer esse discurso porque além de não precisar temer uma perda de eleitorado, ele está aí pra pautar a esquerda e sinalizar onde estão os seus pontos chave. O aborto é um deles. Talvez, ouso chutar, o mais delicado e difícil deles – desde que o casamento gay se tornou um consenso meia-boca entre todos os presidenciáveis. Então eu agradeço ao Plínio por isso. Por deixar bem claro que Serra e Marina estão com os pés atolados na direita anti-escolha. E assim me encho de paciência com a Dilma, entendendo, por um lado, essa sua frase, ainda que guardando cá comigo minhas ressalvas a ela.

Eu concordo que “nenhuma mulher é a favor do aborto” na medida em que o discurso mais rasteiro contrário à legalização ainda fornece os principais argumentos, entre os quais aquele do Serra é exemplar. Só porque tem muito sacripanta crendo e repetindo que as mulheres, se liberadas da ameaça da cadeia,  transarão muito e despreocupadamente, engravidarão e abortarão a toda hora, é que a Dilma, eu e muita gente boa ainda precisamos formular a obviedade: não, o aborto nunca será um ato leviano e fácil. Não no sentido da culpa, que essa eu quero mais é que desapareça mesmo, com ou sem descriminalização. Mas nada, nem mesmo a legalização e a regularização, fará com que um aborto seja um fato corriqueiro e banal. E, no fundo, fica a suspeita de que nem é o aborto em si que horroriza essa gente, mas a perspectiva de um mundo no qual é possível fazer sexo casual e não ter nenhuma consequência compulsória a suportar. Pois claro que é de um moralismo atroz achar que legalização do aborto causará promiscuidade, mas também é de um machismo ordinário achar que promiscuidade é um problema, uma decadência e indignidade às mulheres.

Minha ressalva à essa frase da Dilma, portanto, vai na esteira daquelas minhas expectativas. Não gosto de seu caráter evasivo, menor do que poderia ser, condescendente. Eu não me vejo contemplada nela, e no entanto é uma frase generalista, que se projeta sobre todas nós, as mulheres. “Nenhuma mulher é a favor do aborto“. Eu não sou, de fato, nos termos que mencionei acima. Não sou a favor do aborto como prática contraceptiva do dia-a-dia, mas não fui eu quem formulou esse cenário aí, nesses termos. Antes de tudo, sou contra a figuração que fazem do aborto e contra um debate que seja pautado pelos valores deles. Mas do ponto de vista da escolha, do aborto como possibilidade, como solução pra um impasse, pra um sofrimento, bem, aí eu sou a favor do aborto. Ou, nos termos que eu atribuo a mim mesma, eu sou pró-escolha. E não gosto quando a prosa toma esse rumo torto aí, de querer discutir se aborto é certo ou errado. Não existe certo ou errado nessa conversa, quem tenta usar essa régua são eles, os anti-escolha. O Serra, a Marina. Nós, aqui, discutimos se deve-se dar ou não o direito à escolha. E eu voto na Dilma acreditando, sinceramente, que é nisso que ela acredita sem poder dizer assim, com as letras todas.

Eu voto nela inclusive não acreditando que ela vai conseguir. Estou preparada pra mais um não do congresso e daquele lixo de bancada evangélica. Só não estou preparada pra não ver a Dilma nem tentar.

http://godotnaovira.wordpress.com/2010/09/03/meu-voto-carnica/

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