Aborto: “carnificina”, desigualdade e as eleições

Certamente o tema dos direitos humanos será tripudiado durante a campanha presidencial deste ano. Não espero coisa diferente, sempre é assim. E não estou falando apenas das críticas à nova edição do Programa Nacional de Direitos Humanos, mas de toda a ignorância que será destilada pelos candidatos na busca por mais votos. Equilibrar o lado passional com o racional e manter-se laico nessas horas não dá tanto apoio quanto abrir a porteira da irracionalidade sanguínea, feito os programas de TV do estilo “espreme que sai sangue” ou das carolagens que jogam para baixo do pano os direitos mais básicos, como o direito à autodeterminação e ao próprio corpo.

Ontem na sabatina Uol/Folha, o candidato José Serra questionado sobre o aborto disse: “Considero o aborto uma coisa terrível. Num país como o nosso, se liberaria uma verdadeira carnificina. Isso aí liberaria gravidez para todo lado porque [a mulher] vai para o SUS e faz aborto”.

Não há defensora ou defensor do direito ao aborto que ache a interrupção da gravidez uma coisa fácil e divertida de ser feita, equiparada a ir à padaria para comprar um picolé. Também não seriam formadas filas quilométricas na porta do SUS feito um drive thru de fast food. É algo traumático para a imensa maioria das mulheres que se submetem a ele, tanto física quanto psicologicamente, mas que o fazem por não desejar a gravidez.

Agora, essa história da carnificina foi o ó do borogodó! Quando Marina Silva diz algo parecido, beleza, já é esperado o discurso religioso. E Dilma sairia pela tangente, lisa feito quiabo (ela não deixou Paulo Vannuchi, responsável pela pasta dos Direitos Humanos, sozinho quando o PNDH foi injustamente esquartejado em praça pública?) Surpreende um ex-ministro da Saúde, que teve uma gestão razoável, dizer uma bobagem dessas. Ele conhece os números do Sistema Único de Saúde, sabe muito bem a quantidade de mulheres atendidas com hemorragia ao tentar fazer abortos precários em casa. Sabe que a carnificina que ocorre coberta pela hipocrisia da sociedade brasileira é outra.

Mulher rica vai à clínica, mulher pobre vai à agulha de tricô ou à caixa de Cytotec para barrar uma gravidez em estágio avançado. A discussão não é quando começa a vida, mas as mulheres que estão morrendo nesse processo, por isso negar o direito ao aborto não vai diminuir o número de intervenções irregulares. Segundo a Secretaria Especial de Políticas paras Mulheres do governo federal, cerca de 1,2 milhão de abortos são realizados por ano no país. Os abortos mal feitos causam 9% das mortes de mulheres grávidas, 25% dos casos de esterelidade e são a quinta causa de internação hospitalar de mulheres. Se o candidato não quisesse defender publicamente o direito da mulher ao seu próprio corpo, defendesse a questão como saúde pública.

“Num país como o nosso” o quê? Em que as mulheres não sabem o melhor para elas? Interessante, achei que a idéia de tutela do Estado fosse algo que não estivesse no programa de governo do seu partido, de tanto que defendem o ideário liberal. Isso mostra que uma coisa é a liberdade econômica, outra a liberdade individual que, no Brasil, continua self-service, com o grupo hegemônico escolhendo o que mais lhe apetece e mantendo o resto proibido.

PS: Não estou fazendo ponderação com o outro lado, até porque o bizarro neste blog é bem aceito, independentemente se veio do PSDB ou do PT. Por isso, não poderia deixar de comentar que o líder do governo na Câmara dos Deputados Cândido Vacarezza (PT-SP) indica simpatia pelas aberrações contidas no novo texto do Código Florestal. Ele diz ser necessário haver tranquilidade para votar o assunto e que, por isso, o texto só deve ir à plenário após as eleições. Se por um lado isso é bom por evitar que a bancada ruralista use o tema como trampolim eleitoral, por outro lado vai evitar que os deputados que votarem a favor do texto sejam repudiados pelos seus eleitores. De qualquer forma, Vacarezza já demonstrou que não vai fazer muita esforço para barrar as bizarrices contidas no substitutivo do relator Aldo Rebelo (PC do B-SP), uma das lideranças ruralistas no Congresso, fundamental nesta tentativa de passar o trator sobre a legislação ambiental. “As críticas [ao texto do novo Código] são de quem não leu a proposta”, anotou a edição de hoje da Folha de S. Paulo. Irônico, pois quem parece que não leu a proposta foi ele.

Fonte http://blogdosakamoto.com.br/2010/06/22/aborto-carnificina-desigualdade-e-as-eleicoes/

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Arquivado em feminismo, ofensiva contra o machismo, Uncategorized

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