Sexismo na política digital do twitter

por Conceição Oliveira

Caras leitoras, caros leitores

Em primeiro lugar gostaria de me desculpar pela longa ausência e descontinuidade dos posts.

A justificativa é razoável: estive em viagem ao exterior, por cerca de 25 dias, trabalhando durante longas jornadas com tempo bastante restrito para acessar a rede. Optei por postar em outro espaço um pouco do diário de viagem para informar o público sobre a nossa produção.

Ao chegar, o cotidiano me engoliu: mal tenho tempo para dedicar à minha filha devido às atividades divididas entre a vida acadêmica, o trabalho no Nova África, a vida doméstica e todas as demais tarefas que desenvolvo. Espero que compreendam. Tentarei ser mais disciplinada na produção de textos para o Blog da Mulher.

Hoje é Primeiro de maio. Dia significativo para todos os trabalhadores e para as mulheres trabalhadoras em especial, porque a maioria de nós ainda acumula duplas, triplas jornadas — trabalhar fora, educar os filhos, administrar a casa — e temos ainda salários mais baixos, mesmo  possuindo as mesmas qualificações e desenvolvendo as mesmas funções que homens.

Uma rápida olhada na bibliografia especializada nos informa que entre 1970 e 1990 a população economicamente ativa (PEA) feminina cresceu 260% contra apenas 73% da masculina (Araújo e Ribeiro, 2002), mas dados das PNADs (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 1981 a 1989, referentes à área urbana, de acordo com Barros, Ramos e Santos (1995) estimaram que, nesse período, o diferencial salarial não controlado entre homens e mulheres era de mais de 50%, desfavorável às mulheres para todas as regiões consideradas. Em 2005, os mesmos dados da PNAD informavam que ainda havia uma discrepância do diferencial de salário de aproximadamente 20% em favor dos homens.

Com a luta das mulheres essas diferenças salariais desfavoráveis às mulheres vem caindo, mas ainda é preciso políticas para intervir na situação de clara desigualdade construída historicamente. Entretanto, no Brasil somos sub-representadas na política, como bem informou o artigo de Fátima de Oliveira: “E as mulheres?” que pode ser lido aqui.

Neste ano eleitoral temos duas pré-candidatas à presidência do Brasil: Dilma Rousseff e Marina Silva. Isso é um fator deveras positivo. Ambas candidatas têm uma trajetória de luta ligada à esquerda e as mulheres politizadas de esquerda tiveram de enfrentar, na construção de seus próprios partidos, uma luta interna contra o machismo e o sexismo. Tiveram de educar os companheiros de partido sobre questões básicas sobre o tema.

Não pretendo defender uma visão essencialista que afirma que só por ser mulher, candidatas do sexo feminino defenderão políticas que contribuam para diminuir desigualdades entre homens e mulheres, preconceitos e a discriminação que sofremos. Não é tão simples assim, mas é inegável que a experiência vivida pelas mulheres quando ousam romper a barreira imposta a elas e entram na vida pública (campo historicamente reservado aos homens) pode sensibilizá-las para questões que nos atingem. Cynthia Semíramis escreveu um texto interessante sobre isso aqui.

Acompanhando um pouquinho o início da campanha eleitoral via grande mídia e redes sociais, o que fica visível é que Marina Silva e Dilma Rousseff, como candidatas, terão um trabalho maior que seus adversários do sexo masculino. Elas, além de discutir projetos políticos para a Nação com seus adversários, vão ter de enfrentar a desconstrução dos estereótipos cotidianamente forjados para atingi-las como mulheres. Tudo indica que Dilma Roussef  nesta questão terá um trabalho ainda maior, na medida em que as pesquisas a apontam com cerca de 30% da preferência do eleitorado, e Marina em torno de 9%.

Ao analisar a campanha, aliás pré-campanha, na medida em que oficialmente ela ainda não começou, fiz um exercício que não tem nenhum valor científico, mas que pode me ajudar a exemplificar a percepção que tive. Em pouquíssimos minutos com duas janelas abertas no TweetDeck (um programa para gerenciar a conta da rede social do twitter) eu li microposts (é assim que chamamos as mensagens postadas no twitter) que recorrem ao sexismo para fazer campanha eleitoral difamatória.

A condição do gênero feminino, percepções sobre critérios de beleza ou feiúra, sobre  sensualidade, ou supostos padrões de comportamento adequados às mulheres/damas foram recursos para diferentes twitteiros desqualificarem as candidatas. Selecionei alguns exemplos.


O primeiro deles foi também o campeão de mobilização de preconceitos no twitter enquanto eu fazia a pesquisa.

Esta conta  falsa da Dilma no twitter começa por fazer um jogo de palavras entre Rousseff e Hussein. Alguma semelhança com as estratégias da campanha difamatória que os republicanos dos Estados Unidos utilizaram contra Obama não é mera coincidência, veja aqui.

A postagem abaixo foi extraída do perfil de uma das contas do twitter  que buscam, além de desqualificar a candidata  Dilma Rousseff, confundir o eleitorado. Talvez um dos mais agressivos entre tantos que existam. Nesta postagem, para além de representar uma suposta Dilma ‘assanhada’ que se ‘excita’ com Hugo Chávez (tem variações sobre o mesmo tema com o Datena, no dia em que a candidata foi entrevistada por  aquele apresentador), faz a associação de Dilma a Chávez, personagem política exaustivamente representada na grande imprensa como ‘caudilho’, ditador, censor, membro do ‘eixo do mal’ etc.

Nesta outra o twitteiro, de modo menos explícito, utiliza recurso semelhante:

Na seguinte, o termo “canhão”, considerando a polissemia que a palavra carrega, desqualifica a candidata pelo critério estético: no uso informal e com sentido pejorativo, canhão, segundo Houaiss, significa: pessoa do sexo feminino, extremamente feia; ‘bruxa’.

Aqui, a estética é novamente mobilizada comparando as candidatas do sexo feminino Marina Silva e Dilma Rousseff com a jovem Rania al-Yasin, esposa do rei da Jordânia, Abdullah II bin al-Hussein. Rainhas não são eleitas e fico me perguntando: por que na lista dos candidatos do twitteiro faltaram os candidatos do sexo masculino? A esta altura, os/as  leitores/as atentos/as devem estar se perguntando o que a estética tem a ver com a qualificação de pessoas que se candidatam à presidência da República.

Outra conta que me chamou a atenção é de uma suposta usuária cuja foto a representa caminhando na neve em uma paisagem europeia e cuja bio diz:  “Jornalista de Política/Brasislia (sic), mãe do Gustavo. Acredito no que vejo e quero. Nao (sic) sou tucana nem petista.”

Como eu não acredito em tudo que parece ser, não acredito que este twitter seja de fato da jornalista Maria Lima, de O Globo.  O que é possível constatar nesta conta de twitter é que  a usuária não cumpre o que afirma em sua bio: examinando suas postagens é possível ver inúmeras  mensagens com cunho de  denuncismo da campanha de Dilma. Observem uma página capturada hoje de seu perfil:

Das 20 mensagens que aparecem na página inicial da usuária apenas duas não estão relacionadas a comentários irônicos ou insinuações sobre a candidata Dilma Rousseff, ao PT, a Lula, aos políticos petistas. Nem @marcelobranco, coordenador da campanha da Dilma na internet, está a salvo de seus comentários ‘ternos’. Mas entre tantas, a mensagem que mais me chamou a atenção foi esta aqui:

Suvaco? Bem, de todo modo escolher o termo ’sovaco’ ao invés de axilas e determinar que erguer os braços é algo proibitivo às ‘damas’  parece me no mínimo esdrúxulo. Onde será que esta moça foi educada? Dilma, até mesmo para o discurso da elite dominante, recebeu educação em uma instituição de padrão irrepreensível: ela estudou no Colégio Nossa Senhora de Sion, dirigido por freiras e exclusivo para moças.  Continuemos:

No micropost anterior utiliza-se um discurso que imita os informes de agenda política dos candidatos no twitter para fazer a associação do tema ‘agronegócio’ com produtos agrícolas ‘batata’ e ‘nabo’. A mensagem, além de buscar desqualificar a candidata Dilma Rousseff com um suposto modo de falar  empolado, ao mesmo tempo cria um trocadilho, utilizando a linguagem grosseira e ofensiva do termo ‘nabo’, que também significa pênis.

A mesma estratégia é repetida aqui e a mensagem une o sexismo a um discurso que mobiliza os preconceitos homofóbicos, associando a candidata Dilma Rousseff à palavra ‘caminhoneiras’, termo pejorativo para o tratamento das lésbicas.

Para além do discurso sexista que mobiliza uma série de preconceitos contra as mulheres para atingir as candidatas, especialmente para atingir Dilma Rousseff, este twitter fake da Dilma mobiliza também preconceitos de classe e raça, observem:

Este micropost do twitter falso da Dilma lembra algumas estratégias da revista Veja ao desqualificar, de modo subliminar, os eleitores de Lula em uma de suas famosas capas durante a eleição de 2006, que soava quase como ameaça a um determinado grupo da elite dominante.  Com o título: “Ela pode decidir a eleição”, a chamada de capa discriminava as demais características deste  grupo de eleitores: “Nordestina, 27 anos, educação média, R$ 450 por mês, Gilmara Cerqueira retrata o eleitor que será o fiel da balança em outubro”. A questão que muitos sociólogos fizeram à época era sobre qual o problema de boa parte do povo brasileiro, representada pela eleitora da capa, decidir as eleições para que Veja lhe dedicasse tanta atenção?

Agora, na mesma linha editorial de Veja, que se assusta com o fato de a maioria do povo brasileiro formar o eleitorado do próprio país, os preconceitos étnicos se juntam aos de classe e nosso campeão de campanha suja no twitter, o fake Dilma Hussein, se supera na mobilização dos preconceitos, utilizando a mesma estratégia da postagem anterior:

Pobre, preto, indígena, pessoas com cabelos crespos são todas postas na mesma categoria como se essas características fossem critérios que as desqualificassem como eleitores e as tornassem importantes somente para a campanha da candidata do Partido dos Trabalhadores.  Nenhum candidato, seja ele o mais conservador, abriria mão de tentar falar aos ‘pobres’, a não ser que fosse um suicida político.  Também causaria  estranhamento se um partido nascido do movimento operário como o PT não desse voz e vez nas campanhas dos seus candidatos à população de baixa renda. Igualmente estranharíamos se não víssemos representada na campanha de Dilma a grande diversidade étnica do Brasil.  Mas a estratégia do detrator é outra: ele deseja mobilizar os preconceitos de classe e raça contra a candidata, deseja ainda classificá-la  –  a ela e a campanha — como oportunistas.

Bem, leitoras e leitores pacientes deste longo texto, vocês já devem estar exauridos da maledicência do ‘exército’ de detratores no twitter. Na minha opinião esta é uma campanha inócua, os leitores brasileiros, aqueles que interessam e que decidirão a eleição, que atemorizam Veja e que são desprezados pelo fake Hussein e outros, estão mais interessados na Copa. Vão começar a pensar nos candidatos e candidatas depois do Mundial e quando a campanha na TV, os debates, comícios e caravanas se intensificarem.

Para desgosto dos conservadores que expõem seus preconceitos no twitter, esse eleitorado temido e ao mesmo tempo odiado pelos primeiros não está no twitter. Mas alguns deles estão no Orkut, no Facebook, alguns deles têm e-mail e são constantemente alvo da campanha  insidiosa contra a candidata Dilma.  A este respeito Fátima de Oliveira mais uma vez se posicionou: leia aqui.

Não temos a realidade dos Estados Unidos, onde as redes sociais tiveram papel importante para que os democratas  pudessem desconstruir a campanha difamatória feita contra Obama. De qualquer modo o twitter é um bom revelador do que a camada dominante, a classe média majoritária do sudeste, tanto da esquerda como da direita, pensam, e de como políticos e assessores de diferentes partidos se expressam. E mais, o twitter reverbera links de jornais da grande mídia e, por vezes, alimenta matérias e blogs de jornalistas da grande mídia, pois eles estão em peso nesta rede social.

A célebre tag #censuremDilma que chegou ao TT Brasil (Trending Topics) é um exemplo do uso político partidário da ferramenta. Ela foi mobilizada pela campanha tucana e partidários a partir de um post de um jornalista e blogueiro da grande mídia. Segundo o jornalista e blogueiro tudo não passou de brincadeira (brinks, no dialeto dos twitteiros). Em outro momento o mesmo jornalista e blogueiro escreveu a palavra ‘cafajeste’ com “g” e disse que tinha aprendido com o pessoal da campanha da Dilma. O velho e sábio ditado popular ‘errar é humano’ já era e todos os que cometem erros ortográficos, de concordância etc. podem ser execrados por um lado ou pelo outro.

Questionados sobre seu comportamento tendencioso, esses jornalistas com comportamento partidarizado — mas que negam até a morte sua partidarização — costumam nos achar mal-humorados, afinal, é ‘tudo brinks’, não tem nada a ver com campanha política em favor de um determinado candidato.

Muitos twitteiros que postam assuntos relativos às eleições procuram manter um nível de civilidade e buscam o debate político. Procuro me inserir nesta categoria, não replicando posts (nem mesmo de petistas) que considero fugir do debate político ou que me soam grosseiros. Há humor na política? Muito! Políticos são matérias fartas para bons humoristas. Mas fazer humor inteligente exige consciência crítica, sustentá-lo só no preconceito é fazer ‘gracinha’ de mau gosto.

Não é segredo que sou uma blogueira ativista crítica às mazelas que vivo em minha cidade. Também não é segredo para ninguém que defendo uma candidatura feminina, feminista e progressista.  Mas por fazer esta defesa já fui alvo dos detratores pró-tucanos, assunto que explico aqui. Acho uma guerra inglória essa onda de difamação e ataques sem fim e busco não me cansar com isso, pois realmente falta-me tempo para picuinhas.

Enfim, o twitter — sendo ou não uma ferramenta importante para chegar ao eleitorado brasileiro — me parece dar uma pequena amostra de que a eleição será um campo de batalha, onde as candidatas mulheres, especialmente Dilma, serão alvo do sexismo e outros preconceitos. Resta saber se nós mulheres, que somamos cerca de 5 milhões a mais que os homens eleitores, admitiremos que os preconceitos ganhem força.

Fontes: IPEA e prints recolhidos de diferentes usuários do twitter
Fonte: Blog da Mulher

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