FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: Machista, mas aberto e estimulante

por Mario Osava
FSM 2010
Porto Alegre, 1/2/2010, (IPS) – O Fórum Social Mundial (FSM) “mudou nossas vidas”, embora continue sendo “machista” e os homens dominem sua organização e a maioria dos paineis, resumiu Nalu Farias, coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil.

Há apenas uma mulher entre sete homens no comitê brasileiro que organizou os primeiros encontros do FSM em Porto Alegre, onde há dez anos nasceu este espaço de encontro das organizações sociais de todo o mundo.

As personalidades mundiais que ampliaram sua celebridade nos sucessivos fóruns compõem uma lista com um desequilíbrio semelhante.

Quando o FSM comemora sua primeira década na mesma cidade que lhe deu origem, houve maioria feminina apenas em uma das dez mesas-redondas realizadas ao longo da semana passada, a de sustentabilidade.

Ainda assim, as ativistas presentes em Porto Alegre enaltecem o processo iniciado em 2001, porque lhes permitiu articular alianças internacionais e ações comuns, ampliar a repercussão de suas demandas e suas próprias visões.

“Ganhamos capacidade de articulação”, e o diálogo com outros movimentos e organizações sociais “nos obrigou a melhorar nossas formulações e o discurso feminista. Tivemos que nos apropriar de temas econômicos, ambientais e outras questões sociais”, admitiu Farias.

O FSM é um espaço de aprendizagem para todos, ao reunir em um só espaço uma inimaginável diversidade mundial de movimentos, lutas, etnias, organizações não governamentais e grupos dos mais diferentes matizes.

Sua metodologia “é uma abordagem de gênero”, disse Raffaella Bollini, da Associação Recreativa e Cultural Italiana, que atua em centros comunitários. Além de acolher a diversidade, o FSM rompe com o pensamento de esquerda que vislumbra apenas mudanças pela tomada do poder, “não compartilha e busca derrotar, não incluir”, explicou.

Sua dinâmica não é a do poder de líderes, mas de facilitadores “para servir, não comandar”, a favor da inclusão “contra a violência e a imposição”, acrescentou. Isso é o mais importante no Fórum, não o conteúdo que poderia ser discutido também em outros âmbitos, concluiu.

O FSM abriu ao feminismo um campo inédito para levar sua voz, inserir suas demandas em uma ação mais global e “contaminar” outros movimentos e ativistas com suas ideias, segundo Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas.

“A contaminação foi mútua, muitos aprenderam e se enriqueceram conosco, e nós aprendemos com outros movimentos, sobretudo porque a teoria feminista é porosa, está em permanente mudança”, disse Lílian Celiberti, da Articulação Feminista Marcosul, com sede no Uruguai.

Essa característica da corrente feminista contrasta com outras que, “mesmo sendo alternativas, têm vocação hegemônica, como a economia”, ressaltou.

Celiberti propôs que o diálogo múltiplo e horizontal, propiciado pelo FSM, se contraponha à fragmentação do conhecimento, uma tendência da especialização que não se freia “apenas com a vontade” de alguns. “É necessária uma instância ampla como o Fórum”, afirmou.

O desafio é “pensar globalmente em interação com outros, como as indígenas e camponesas”, acrescentou.

Outro ganho de todos foi “romper estereótipos”, que geram danos e distorções. Os progressos nesse processo foram grandes, “hoje os diálogos no FSM são mais complexos”, comemorou a ativista uruguaia, unida por laços dramáticos com Porto Alegre.

Em 1978, foi sequestrada na capital gaúcha, por policiais brasileiros em cumplicidade com militares uruguaios, e provavelmente não perdeu a vida porque alguns jornalistas descobriram o caso, que era parte da Operação Condor, a cooperação repressiva e ilegal de países sul-americanos, na época todos sob ditaduras.

Apesar dos avanços feministas proporcionados pelo FSM, Celiberti crítica a “hierarquização” das lutas no processo de discussão, que coloca em posição “secundária” as questões de gênero, diante das que são consideradas “urgentes, prioritárias”, como pobreza, desemprego ou imperialismo.

É estimulada a economia da gratuidade e do cuidado, sem levar em conta que apresentam “enormes custos para a mulher”, cujo trabalho mais generalizado, de garantir a reprodução da vida e o cuidado com a infância, os idosos e enfermos, é gratuito, afirmou.

Além disso, “no Fórum sente-se” barreiras ao debate mais aberto de questões como o patriarcado. Quando se trata de protestar contra as guerras participam todos e todas, mas “a violência contra as mulheres” é uma luta específica somente delas, lamentou.

A Marcha Mundial das Mulheres, que assumiu o caráter de movimento em outubro de 2000, após sete meses de mobilizações, se distingue de outras vertentes feministas por sua opção política de esquerda, sua estratégia de auto-organização e aliança com outros movimentos mistos.

“Renovou o feminismo”, assegurou Farias, ao promover amplas mobilizações, inclusive dentro do FSM, cujos organizadores inicialmente se opunham a marchas e atos públicos como parte do processo de debates.

“Privilegiamos o movimento social, atuamos e pensamos”, destacou, rechaçando uma divisão no feminismo entre “ação de umas e pensamentos de outras”. Criticou também as que “aboliram as classes”, por pretender uma luta separada pela igualdade de gênero.

As articulações no FSM e em outros encontros levaram a Marcha a uma aproximação mais estreita com a Via Camponesa, na qual a luta pela soberania alimentar tem grande importância, e com a Amigos da Terra Internacional, focada na questão ambiental.

Por isso, às vezes recebe críticas por priorizar essas alianças em detrimento de outros grupos feministas.

A Marcha tem representação em 70 países. No Brasil, uma das nações onde criou raízes mais profundas, conta com comitês em 20 de seus 27 Estados.

Sua ênfase nas lutas sociais e políticas incorpora as demandas claramente feministas, com a despenalização do aborto, mas foca no direito das mulheres à “autonomia de seu corpo” e não em posições defensivas, como em outras organizações.

Também propõe que as mulheres devem levar adiante mobilizações de massa, não se limitando apenas a pressionar os parlamentos e outros poderes do Estado, para, assim, acumular forças na sociedade, explicou Farias.

O FSM possibilitou ao movimento organizado da mulher se fortalecer e se ampliar no diálogo com outros movimentos e correntes de pensamento, ganhar maior repercussão, estabelecer novas alianças e desenvolver ações conjuntas, reconhece a dirigente.

Diante do “machismo” refletido na organização, nos temas e no direito à voz dentro do FSM, a Marcha Mundial conseguiu desde o início conquistar espaços por meio de suas mobilizações, atos e paineis de iniciativa própria.

Tudo isso para defender um “feminismo crítico, com visão de classe, claramente anticapitalista e contra a mercantilização do corpo”, concluiu Farias. (FIN/2010)

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