HOMEM, FAÇA A SUA PARTE

Eu sou parte do problema

Sou parte do problema. Todos nós somos. Você também.

Hoje é dia de combate à violência contra mulheres, e estou completamente sem tempo para escrever algo decente (a tag no Twitter é #FimdaViolenciaContraMulher). Mas esta semana tive uma discussão (amigável, espero) com um aluno quando falávamos da violência contra as mulheres. Quer dizer, é meio difícil falar disso como se fosse algo no ar, uma abstração, sem aquela equação de agressor e vítima (que, se sobrevive, preferimos chamar de sobrevivente). E o aluno não gostou de ver seu gênero, o masculino, sendo tratado como algoz. Tod@s nós já ouvimos essas queixas antes: que não são todos os homens, que não dá pra generalizar, que isso é injusto com os homens. Que não são todos os homens é tão óbvio que é ridículo que necessite de resposta. É lógico que não são. Mas são muitos homens. Se conseguirmos mudar a cabeça desses homens, fazê-los com que parem de ver mulheres como propriedade particular, já resolvemos grande parte do problema. Porque é esse sentimento de posse que faz com que homens sintam que podem fazer o que quiserem com “suas” mulheres: estuprá-las, esmurrá-las, matá-las se elas ousarem tentar se separar.

Gostaria de propor algo a cada homem que se sentir injustiçado com a acusação de que, sim, homens estupram, homens matam, homens são pedófilos, homens são serial killers (preciso mesmo explicar que não estou dizendo que todos os homens são tudo isso, apenas que a esmagadora maioria dos estupradores, pedófilos e serial killers são homens?). Use a energia que você gastaria pra desmentir esses fatos em outra coisa. Ao invés de gritar “Não são todos os homens!”, “Eu não sou assim!”, e “Assim você me ofende!”, gaste esse vigor todo pensando: o que você pode fazer para diminuir o problema? Mesmo que o problema não seja diretamente seu (afinal, você não é um agressor), ele é parte integral do mundo em que você vive. Aliás, no mundo em que eu vivo também. E eu não preciso ser agredida para lutar para que isso pare de acontecer com mulheres ao redor do planeta, preciso? Então você também não precisa agredir pra fazer deste o seu problema. Afinal, se tantos homens são agressores, é meio ridículo que uma pauta como combate à violência contra as mulheres seja apenas feminina. Tem que ser, acima de tudo, uma prioridade masculina. Portanto, assuma a sua parte: o que você pode fazer para que este problema imenso de toda a sociedade diminua (o ideal seria que desaparecesse, mas vamos começar pela diminuição)?


Permita-me algumas sugestões: se você tiver um blog, escreva sobre isso. Escreva sobre quando você começou a autoanalisar o seu sentimento de posse. Escreva sobre o que viu de desigual no relacionamento entre os seus pais. Escreva sobre o ciúme doentio que você sentiu aquela vez da sua namorada. Escreva quando descobriu que as mulheres merecem respeito. Por que escrever? Primeiro, porque você coloca esses sentimentos pra fora. Faz pensar. E, desta forma, você é capaz de convencer outros homens a fazer o mesmo. Mais do que eu, uma feminista confessa que eles vão olhar com desconfiança.

Que tal formar grupos de discussão de homens? Isso existe nos EUA entre homens feministas, homens que reconhecem que há algo de errado na sua formação, algo que faz com que sejam violentos com mulheres. Homens que querem mudar esse quadro. Nessas reuniões, eles discutem conceitos como o que é ser homem (é ser violento? É recorrer à violência para resolver conflitos? Quando esse aprendizado começou? Como apagá-lo?). Sabe, palavrinhas que para feministas (tanto mulheres quanto homens) estão ultrapassadas, mas que continuam vivíssimas no senso comum, palavras como hombridade, macheza, mulherzinha. Note que, discutindo esses conceitos, você estará não apenas atacando o machismo, como também a homofobia, que sempre caminha de mãos dadas com o machismo.

Fale com seus amigos sobre estupro. É, é tabu, eu sei, é aquilo que só psicopatas fazem na calada da noite, aguardando vítimas desconhecidas cruzarem o seu caminho. Pois bem: não é. A maior parte dos estupros não é cometida por psicopatas anônimos, mas por amigos e familiares da vítima. E, se as estatísticas apontam que quase 30% da população feminina no mundo já foi vítima de abuso sexual, é sinal que tem muito homem do tipo “longe do clichê do estuprador anônimo” estuprando. E não duvide: toda mulher tem uma história de horror pra contar. Histórias de horror que acontecem por apenas um motivo: por elas serem mulheres. Converse com seus amigos. Quando que vocês “forçam a barra”? Quando uma mulher diz não, ela deve ser levada a sério? (ahn, sim, deve, mas não se surpreenda se seus amigos, e algumas amigas, acharem que não). O que vocês homens podem fazer para que o estupro suma da face da Terra? Ou é demais sonhar com um mundo em que nenhum ser humano seja forçado a fazer sexo contra sua vontade?

Que outras sugestões você tem? Pense! É o seu mundo também. Faça a sua parte. Faça a coisa certa.

http://escrevalolaescreva.blogspot.com/

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